– j.soares@cpovo.net –
Os palestinos estão partindo para uma cartada decisiva com vistas à constituição do seu estado. É praticamente certo que nesta sexta-feira, 23, irão formalizar pedido nesse sentido na Assembléia Geral da ONU. O que é a alternativa de um estado com menos autonomia, porém, a mais viável de se concretizar. Para tentarem tornar a Palestina um estado membro da organização, com os mesmos direitos dos demais, precisariam apresentar o pedido perante o Conselho de Segurança. Neste caso, o pedido esbarraria no veto dos Estados Unidos, aliado incondicional de Israel. Assim, o caminho a ser seguido é o da Assembléia Geral, onde, no entanto, poderão ganhar o status de “Estado observador não membro”. O que é a mesma situação do Vaticano. Porém, é também a mesma situação pela qual já passaram Áustria, Japão, Mônaco e Suíça. E o que se vê hoje é que todos estes quatro gozam de plenos direitos como os demais estados membros. Na condição de “estado observador”, os palestinos já poderão participar de organismos da ONU, como Fao, Unesco, OIT, etc. Ou seja, terão representatividade internacional.
A semana que está começando foi precedida de intensas negociações no Oriente Médio, por parte de representantes dos EUA e da União Européia. Tentavam demover os palestinos de seu intento, alegando que deveriam voltar à mesa de negociações. Mas é se perguntar, como poderiam os palestinos voltar a negociar se Israel não atendeu uma questão fundamental para tal, que é suspensão dos assentamentos judaicos na Cisjordânia. Isto sem contar os outros aspectos básicos que estão entravando as negociações. Mas esta questão dos assentamentos era crucial. Fossem suspensas as edificações, Israel estaria demonstrando boa vontade em negociar. Como não houve a suspensão, nem mesmo com o pedido por parte do governo dos Estados Unidos, não foi criado o clima para a volta à negociação.
Vale lembrar que, além do problema assentamentos, as negociações dependem de acertos em outros temas. Como, por exemplo, o retorno dos refugiados palestinos ou uma indenização para os mesmos; a pretensão de Israel de ser reconhecido pelos palestinos como um estado judeu; a divisão de Jerusalém, sendo a parte ocidental a capital de Israel e a oriental a capital da Palestina; o retorno de Israel às fronteiras de 1967, além de outras questões menores. Todos estes aspectos estarão em discussão a partir do momento em que o líder palestino Mahmoud Abbas apresentar sua petição perante a Assembléia da ONU. Aliás, assembléia que, como sempre, será aberta por representante brasileiro, sendo esta a primeira vez em que o ato será procedido por uma mulher. E a presidente Dilma Rousseff já deixou clara a posição do Brasil, que será em defesa da constituição do estado da Palestina, porém, ao mesmo tempo, de defesa dos limites territoriais de Israel.
Assim, enquanto os palestinos vão para a linha de frente, fica muito difícil para Israel contestar nos foros internacionais o direito dos seus rivais a ter o seu próprio solo. Na realidade, a situação regional não está nada fácil para Israel, pois, além dessa mobilização dos palestinos – que pode se refletir em distúrbios internos – surgiram problemas diplomáticos com os dois maiores aliados da região: Turquia e Egito. Os problemas com a Turquia decorrem das mortes de nove turcos que integravam a chamada “flotilha da liberdade”, que pretendia levar ajuda humanitária a Gaza e que foi contida pela Marinha israelense. E com o Egito, da morte de cinco soldados egípcios por militares israelenses, em um ato equivocado, em meio ao combate a insurgentes que atacaram uma frota israelense no sul do país. Pode-se acrescentar aos problemas de Israel a permanente ameaça do Irã e a indefinição da Síria, um país inimigo, mas não ameaçador sob o regime de Bashar al-Assad. Só que, se este cair, não se sabe como ficará a relação com Israel.
Enfim, convulsão não é novidade no Oriente Médio e esta é uma semana crucial para os palestinos que, para alcançar seu objetivo, também terão que administrar as suas divergências internas entre Hamas e Fatah.