Contrariando uma tendência vigente na Europa e na América Latina, Portugal elegeu neste domingo, 8, um presidente de esquerda. E com uma vitória incontestável, basta ver o resultado: 66,6% contra 33,4% a favor do socialista Antônio José Seguro, contra o representante do partido Chega, de direita, André Ventura.
Seguro irá substituir Marcelo Rebelo de Souza, há 10 anos no cargo e vai acabar com 20 anos de presidentes de direita. O governo atual vinha defendendo uma política de maior controle da imigração, conforme estão fazendo muitos países europeus.
MIGRAÇÃO
No período de 2010 a 2020, a Europa abriu-se aos imigrantes. Refugiados de guerras como da Síria, do Iraque, do Sudão e outras, assim como os que fugiam da seca e da fome na África, passaram a ser recebidos nos países da União Europeia. Inicialmente, o contingente passou a ser bem recebido no continente, tanto pelos aspectos humanitários, como pelo fato de passarem a exercer as atividades menos qualificadas, que os europeus não queriam exercer.
O problema é que o contingente foi aumentando de forma extraordinária, a cada ano. Só num ano a Alemanha, então governada por Angela Merkel, recebeu cerca de um milhão de imigrantes. E esses passavam a usufruir do sistema previdenciário alemão. Já França viu seu território ser invadido por muçulmanos que não aderem à cultura local.
DIFERENÇA
Portugal tem um diferencial em termos de Europa, é o país que mais exporta trabalhadores para o continente. Só para se ter uma ideia, enquanto o salário mínimo em Portugal gira em torno de mil euros, na Suíça chega a 7 mil euros. Assim, é comum se ver portugueses trabalhando naquele país como atendente de hotel, garçom, motorista de aplicativo, prestador de serviços domésticos, etc.
Funções estas que em Portugal passaram a ser exercidas basicamente por imigrantes. Muitos dos quais brasileiros. A propósito, dados do Itamaraty apontam que 513 mil brasileiros vivem em Portugal. A segunda maior comunidade brasileira fora do país, atrás apenas dos Estados Unidos. Estimativas mais recentes, de 2025, apontam que esse número pode chegar a 600 mil, sendo a maior força de trabalho imigrante dentro do território lusitano.
SUPERAÇÃO
Mas, se esta questão da imigração pesa tanto na Europa, a pergunta é sobre o porque da vitória da esquerda em Portugal. Bem, já se viu que essa questão tem um aspecto diferenciado no país. Porém, é lógico, pesou muito o aspecto político. Apesar da longa trajetória no Partido Socialista, Seguro se apresentou durante a campanha como um candidato moderado, falando em “opção segura” e se comprometendo a dialogar com o governo de centro direita atualmente no poder.
Sua candidatura atraiu um apoio amplo e transversal, incluindo figuras como o ex-presidente Aníbal Cavaco Silva, além de ministros do governo de centro-direita e a maioria dos candidatos derrotados no primeiro turno. O movimento refletiu a tentativa de conter o avanço da direita, representada por André Ventura.
DESAFIOS
Portugal é uma das economias mais pobres da Europa e o desafio que se estabelece para o novo governo é buscar a recuperação. Portugal enfrenta, há mais de duas décadas, um problema estrutural de crescimento económico que se traduz numa divergência persistente face à União Europeia. Entre 1999 e 2024, a economia portuguesa cresceu, em média, cerca de 1% ao ano, um ritmo que implica duplicar o PIB apenas ao fim de quase 70 anos.
Diante de todas estas considerações, é preciso ainda ressaltar um fato: o presidente em Portugal é o chefe de Estado, não é o chefe de Governo, função hoje exercida por Luis Montenegro, do PSD, um partido de direita moderada, que continua no cargo. O presidente em Portugal, além das questões de cunho externo, tem poder para duas coisas: desempenhar como árbitro em casos de crise, ou dissolver o Parlamento para convocar novas eleições legislativas. Todas as demais questões – que são aquelas que realmente interessam à população, como da economia – são atribuição do primeiro-ministro. Então, esta eleição não muda muito o quadro vigente em Portugal.