Depois de um período preso às questões internas de seu país, especialmente às relacionadas aos separatistas da Tchechênia, o presidente russo Vladimir Putin resolveu sair novamente para a linha de frente. E para marcar bem sua presença, nada melhor do que bater de frente com a maior potência do mundo. Putin fez uma crítica aos EUA por sua vontade de dominação.
O fato é que, não só essa vontade, mas essa efetiva dominação que os EUA exercem sobre o mundo hoje, se dá em grande parte por culpa de Moscou. Os russos, enquanto lideravam a então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, se constituíam no grande contra-ponto a Washington. No entanto, ao não se renovarem, ao insistirem na política de partido único e na economia centralizada, acabaram se afundando. E o desmantelamento da União Soviética deixou o caminho livre para os EUA fazerem o que bem entendem. Como, por exemplo, passarem por cima da ONU para invadir o Iraque.
Com o término da União Soviética, a Rússia se tornou um país comum, como tantos outros por aí. Mas agora Putin está querendo reagir. E para isto está buscando aliança importante em área, até há pouco, de dominação absoluta dos EUA: as monarquias do Golfo Pérsico. Putin foi visitar justamente a Arábia Saudita, que é o maior aliado dos EUA no mundo árabe. Mas cujo governo apoiou a guerra contra o Iraque em 1991, quando este havia invadido o Kuwait, mas que se negou a apoiar a ofensiva de 2003, dita em nome do terror. E os sauditas, que antes ofereciam seu território para base às operações militares americanas, agora se negam a faze-lo.
A casa real saudita tem uma histórica ligação com a família Bush, em função do petróleo. Ligação que, aliás, é muito bem detalhada pelo escritor americano Craig Unger no livro “As Famílias do Petróleo”. E uma ligação, que é bom relembrar, passava pela figura de Bin Laden. É! Esse mesmo Osama Bin Laden que orquestrou os atentados do 11 de setembro de 2001. A família Bin Laden foi quem praticamente estabeleceu a conexão Houston Jedah. Foi um representante da família Bin Laden, Salem, juntamente com Kalid Bin Mahfuz, que estabeleceu a aproximação das famílias Bush e Saud, facilitando os grandes negócios em torno do petróleo.
“O prêmio mais prestigiado e lucrativo dado pela família real saudita os Bin Laden – relata Unger – foram as maiores estradas do reino e o direito exclusivo de executar todas as obras religiosas, inclusive contratos de 17 bilhões de dólares para reconstruir os lugares sagrados de Meca e Medina”.
Pois bem, mas com toda a ligação que há entre as famílias Bush e Saud, os sauditas estão hoje muito descontentes com o presidente americano por sua ação no Iraque. Descontentes não pelo que está acontecendo aos iraquianos, mas pelo que está respingando na Arábia Saudita. Acontece que o Iraque era o anteparo árabe contra o avanço da revolução islâmica do Irã. Os EUA, inclusive, armaram Saddam Hussein para a luta que ele travou na guerra contra o Irã, de 1980 a 1988. Depois, pensaram que poderiam retira-lo do poder e tomar conta do petróleo iraquiano, sem problema algum. Deram-se mal.
Hoje, os EUA denunciam a ação de iranianos dentro do Iraque, matando soldados americanos. E os sauditas, de sua parte, se queixam da desestabilização que os fundamentalistas islâmicos, orientados por Teerã, tentam promover na Arábia Saudita. E é justamente nesse terreno fértil que Putin lança a semente de sua nova aliança.