(Artigo publicado no Correio do Povo de domingo, 07/11/10)
A fisionomia abatida com que o presidente americano Barack Obama apareceu na coletiva de imprensa, para justificar a derrota dos democratas nas eleições de terça-feira, contrastou profundamente com a do vitorioso das eleições presidenciais de dois anos atrás. Uma demonstração de que sentiu profundamente o impacto do resultado. Certo que foi um resultado negativo, afinal, perdeu a folgada maioria que mantinha na Câmara dos Representantes, perdeu também a maior parte dos governos estaduais que estavam em jogo e manteve, a duras penas, a maioria no Senado. No entanto, bastava Obama consultar a história recente de seu país para perceber que o que enfrentou é um fenômeno comum. Ou seja, as chamadas eleições de meio de governo, normalmente, são vencidas pelo partido opositor.
O eleitor americano, logicamente, votou pelo bolso. A economia pesou substancialmente no resultado. E mais uma vez Obama, que se revelou um extraordinário estrategista nas eleições presidenciais, usando todos os modernos métodos de comunicação, não soube mostrar para os eleitores que a responsabilidade pelo que está acontecendo vem do governo republicano de George Bush. Afinal, quando foi que começou a recessão? Em junho de 2007, em pleno governo de Bush. Quando também estourou a bolha financeira, que deixou milhares de americanos sem a sua moradia, num dos episódios mais deprimentes da história do país. Obama conseguiu acabar com a recessão, mas não com a crise. O país já apresenta crescimento positivo, que está na ordem de 2%, mas o desemprego bate perto dos 10%. E isto é grave.
Os republicanos criticam os gastos governamentais. Querem o Estado gastando menos e não aceitam sequer o plano de saúde, que Obama criou para dar assistência a 39 milhões de cidadãos desamparados. Segundo consta, ele vai ter que aceitar algumas modificações para que o plano não seja detonado pelos republicanos. Mas estes não querem gastar com a saúde de seus compatriotas, falam em gastos exagerados do governo, e não se lembram que o governo republicano de George Bush é responsável por duas guerras, Iraque e Afeganistão, que representam US$ 1 trilhão para os cofres públicos. Ou seja, para o cidadão americano. Este gasto parece normal. Aliás, foi com base na “guerra da mentira” que eles reelegeram George Bush em 2003.
Tudo isto, porém, ameniza mas não isenta a responsabilidade de Obama. Que, aliás, age de forma diversa dos europeus para combater a crise. Na Europa, os governos, como o britânico, por exemplo, estabeleceram cortes drásticos nas despesas, inclusive com a demissão de funcionários. Só na Inglaterra atinge quase meio milhão. Bem, desempregar pode diminuir o gasto governamental, mas, em contrapartida, significa maior problema social. E desemprego é algo que Obama tem a obrigação de combater. Daí a sua política de, ao invés de diminuir, incrementar os gastos do Estado para gerar mais empregos. Aliás, já foi assim na Grande Depressão de 1929. O Estado, com suas obras, foi o indutor da geração de empregos e do crescimento do país. E é este o caminho que Obama pretende seguir. Afinal, ele já usou recentemente o Estado para salvar os bancos da insolvência, porque não pode usar para salvar os empregos?
E foi justamente para gerar empregos que Obama injetou US$ 600 bilhões de dólares na economia do país, esta semana, através da venda de títulos do Tesouro para o Fed, o banco central americano. É dinheiro que não é pouco, corresponde a 4% do PIB do país, mas é dinheiro artificial. “Lançado de helicóptero” como disse o nosso ministro da Fazenda Guido Mantega. Dinheiro que pode fazer estragos nos países emergentes como o Brasil. Estima-se que uma parte desse dinheiro possa vir para cá como forma de investimento. O resultado será o inverso do que o governo brasileiro está buscando, pois vai gerar maior valorização do nosso real e, consequentemente, vai dificultar ainda mais a vida dos nossos exportadores. Sem contar que também pode fazer um grande estrago no próprio EUA, gerando inflação. Nesse tema, Obama não será cobrado pelos republicanos, mas, pela maior parte dos países que estarão presentes à reunião do G-20, semana que vem, em Seul.