(artigo publicado no Correio do Povo de domingo 17/08/08)
O conflito entre Rússia e Geórgia tem sua origem no processo que resultou na desintegração da União Soviética, em 1991. Porém, sua motivação presente envolve a crescente confrontação entre Rússia, de um lado, e União Européia e Estados Unidos de outro. Com o colapso do comunismo no Leste europeu, os países que compunham a União Soviética se tornaram independentes e, gradativamente, a maioria passou a fazer parte da União Européia ou da OTAN, ou até mesmo das duas entidades. Enfraquecida, a Rússia nada pode fazer.
Com o governo de Vladimir Putin a Rússia começou a se recuperar, graças especialmente ao dinheiro do petróleo em alta. Putin passou para Dmitri Medvedev um país reforçado. Mas que viu o Ocidente aprovar a independência de Kosovo, contrariando a vontade da Sérvia, sua histórica aliada. E estava vendo também a Ucrânia e a Geórgia se alçarem a fazer parte da OTAN. Foi aí que Moscou resolveu agir. Deu o troco para o Ocidente impedindo a ação da Geórgia nas suas províncias rebeldes da Ossétia do Sul e da Abkhasia. Até porque, ao ceder seu terreno para passagem de gasoduto levando petróleo e gás da Ásia Central para a Europa, a Geórgia fez perder força o petróleo russo.
A decorrência foi que o conflito começou a assumir proporções preocupantes, na medida em que se vê uma crescente confrontação verbal entre Washington e Moscou. Na sexta-feira, o presidente russo Dmitri Medvedev recebeu os dirigentes da Ossétia do Sul e da Abkhásia. Ao mesmo tempo em que isto acontecia, o chanceler russo Serguei Lavrov declarava que o mundo deve por de lado a integridade territorial georgiana. A Casa Branca considerou a declaração “uma brincadeira”, segundo a porta-voz Dana Periño. Mas, seguramente, que não é. A Rússia está dando uma resposta aos EUA e à União Européia com relação a Kosovo. Não é sem razão que o presidente da Geórgia, ao assinar o tratado de cessar-fogo com Moscou, se queixou que o documento não fala sobre o futuro das regiões separatistas. A dedução é de que não irão mais fazer parte da Geórgia.
Além disto, há o aspecto de Moscou querer mostrar ao mundo que volta a mandar na sua antiga área de influência. E é justamente num dos países que orbitava em torno de Moscou ao tempo da União Soviética, a Polônia, que tem-se hoje outro foco de tensão. A Polônia está fechando acordo com os EUA para a instalação de um escudo antimísseis. Contrariando o governo russo que, por diversas vezes, se manifestou contra a medida. Ou seja, mais um desafio aos russos e mais um fator a aumentar a tensão entre Washington e Moscou. O que ameniza é que o governo americano precisa do governo russo para dissuadir o Irã de seu programa nuclear.