“Daniel, pare de matar, já!” Este apelo foi feito ao presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, por Mejia Godoy, um consagrado cantor e poeta nicaragüense que esteve ao lado dos sandinistas, 39 anos atrás, quando derrubaram a ditadura direitista de Anastasio Somoza. Mejia Godoy, como outros expoentes da Revolução Sandinista, como o padre Ernesto Cardenal, hoje se voltam contra os rumos que Ortega deu à mesma. Se há 39 anos a OEA, Organização dos Estados Americanos, denunciava as atrocidades cometidas pelo regime de Somoza, não foi diferente nesta semana, quando a organização denunciou o regime nicaragüense de “práticas de terror, com detenções em massa e assassinato.”
Fato mais significativo ainda é marcado pela cidade de Masaya, de cerca de 100 mil habitantes, e distante 30 quilômetros de Manágua. Foi ali, no bairro indígena de Monimbó, que teve início o movimento que se constituiu na FSLN, Frente Sandinista de Libertação Nacional. Jovens, “los muchachos”, com lenços em vermelho e preto cobrindo o rosto, ergueram a bandeira com as mesmas cores em busca de liberdade. Pois foi exatamente neste mesmo bairro de Monimbó que os jovens, agora empunhando lenços em azul e branco e portando a bandeira da Nicarágua, que tem as mesmas cores, levantaram-se contra as atrocidades do regime comandado por Ortega. E, ironicamente, não pode ser realizada ali, conforme era feita anualmente, a celebração pelo aniversário da revolução.
O movimento de rebeldia, que segundo a Comissão de Direitos Humanos da OEA já deixou mais de 360 mortos, começou há três meses, quando Ortega anunciou uma reforma da previdência que diminuía os benefícios e aumentava as contribuições. As manifestações foram brutalmente reprimidas, gerando o ódio contra o governo de Ortega, que, como outros dirigentes autoritários da América Latina, manobrou para poder reeleger-se indefinidamente. Nesta quinta-feira, Ortega voltou-se contra outro setor que deu sustentação à revolução sandinista, a Igreja Católica. Acusou-a de estar conspirando contra o governo. O apoio da Igreja viera fundamentalmente do movimento Teologia da Libertação, então coordenado pelo padre Cardenal. Este viria a se tornar ministro da Cultura no governo sandinista, porém, rompeu com Ortega em 1994, tornando-se mais um perseguido pelo regime. O que a Igreja Católica pede hoje é a antecipação das eleições. E se Ortega tem confiança em sua popularidade, não haveria porque não atender ao pedido, que oferece como contrapartida o fim das manifestações contra o regime. Mas, o que se observa é que Ortega confia mais na força de seus capangas, sem ligar para os clamores de seu parceiro de batalha Mejia Godoy.