O resultado das eleições de domingo passado no Chile apresentou uma profunda virada do país à direita, com a eleição de José Antonio Kast, que se diz identificado com o ex-presidente Augusto Pinochet. Vale lembrar que a ditadura do general Pinochet, de 1973 a 2000, foi uma das mais cruéis que se tem notícia na América Latina. Pelo número de vítimas que produziu, só foi superada pela ditadura argentina, 1973-1985.
O Chile já teve recentemente governos de direita, mas, nada que lembre a ditadura de Pinochet, a qual se destacou pela perseguição aos opositores do regime. Nesse ponto, vem à memoria os acontecimentos imediatos à deposição de Salvador Allende, a 11 de setembro de 1973, quando o Estádio Nacional ficou lotado. Não de pessoas para assistir a uma partida de futebol, mas, de presos políticos. Muitos dos quais acabaram sendo executados posteriormente.
MEMÓRIA
Trago esses fatos para lembrar quão cruel foi o regime pinochetista e para manifestar a esperança de que isto não venha a repetir-se. Mas, tem outros aspectos a serem resgatados. Acontece que o Chile, que tem o mais alto índice cultural e de qualidade de vida da América Latina, estava escorregando para dois dos três males endêmicos da América Latina: violência e narcotráfico. O terceiro, corrupção, pelo que consta ainda não aconteceu.
E para evitar que isto venha acontecer e para combater os outros dois que estão em vigência, a população chilena optou por uma política que tem consagrado a direita europeia. Afinal, a Europa, outrora tranquila, mergulhou na violência depois que abriu, indiscriminadamente, suas portas à imigração. Enormes contingentes, fugindo das guerras ou da fome, inundaram o solo europeu. A Alemanha chegou a receber em um único ano, 2015, um milhão de imigrantes, a maioria fugindo da guerra civil na Síria. Assim, não é sem razão que os políticos da direita mais radical cresceram na Europa. Assim como cresceu, com a mesma política, Donald Trump no continente americano.
METAS
José Antonio Kast, que recebeu 58,6% dos votos, contra 41,3 da comunista Jeannete Jara, tem metas bem específicas, envolvendo temas como segurança pública, imigração, economia, política externa e até para uma nova Constituinte, algo que foi tentado pelo atual presidente Gabriel Boric, porém, sem sucesso. A campanha de Kast focou em um discurso de “linha dura” sobre segurança pública e controle da imigração. Ele prometeu restaurar o Estado de Direito e deportar cerca de 340 mil imigrantes em situação irregular, a maioria venezuelanos.
Mas, há também no país muitos imigrantes peruanos e bolivianos. Muitos vão trabalhar nas minas de cobre, porém, muitos outros ficam perambulando pelas cidades. E é justamente pela fronteira com esses dois países que entram as drogas que contaminam o Chile. Daí o endurecimento nessa área.
ECONOMIA
Lógico que um dos setores que também pesa muito numa eleição é o da economia. Porém, na presente eleição foi superado pelos temas da imigração e da violência. A economia do Chile está em recuperação e crescimento moderado, impulsionada por exportações (cobre, frutas) e demanda interna, mas enfrenta desafios como a desigualdade social e a dependência do setor mineral.
O PIB cresceu 2,3% no 1º trimestre de 2025, superando expectativas, e a inflação tem diminuído, com cortes nas taxas de juros para estimular a economia, apesar de incertezas globais e estagnação da confiança empresarial. É esta confiança que Kast pretende resgatar. Sua plataforma inclui políticas mais liberais ou conservadoras, em contraste com a esquerda, o que pode impactar a economia e os investimentos.
Assim é que não se trata de ter saudades de Pinochet, mas, de a população querer resgatar algo que sempre foi um padrão no Chile: a segurança.
CONSTITUINTE
Gabriel Boric chegou a colocar em votação um novo projeto de Constituição, o qual acabou sendo rejeitado, por ser considerado muito à esquerda. Na sequência, a direita e a extrema-direita já haviam conquistado maioria absoluta no conselho encarregado de redigir a nova Constituição, o que lhes dá controle significativo sobre a elaboração do novo texto constitucional. Isso pode influenciar a direção das reformas institucionais do país.