Quem, como eu, viveu o período da Guerra Fria acompanhando os assuntos internacionais, não deixa de reverenciar a figura de Alexander Soljenitsin. Ele foi um ícone do combate ao regime comunista que imperava na União Soviética. Pagou caro por isto, mas se tornou um referencial. Suas agruras começaram logo depois do fim da Segunda Guerra, quando foi enviado para a Sibéria por ter criticado a forma como ditador Joseph Stalin conduziu a guerra. Isto lhe valeu oito ano de prisão no inferno gelado da Sibéria. Para onde, diga-se de passagem, eram enviados todos os que se atreviam a contestar o regime.
A experiência siberiana permitiu-lhe publicar, em 1962, “Um dia na vida de Iva Denisovich”, romance que descreve a vida passada nos campos de reclusão da Sibéria. Livro que embasou a conquista do Prêmio Nobel de Literatura, em 1970. Quatro anos depois, foi expulso de seu país, o que lhe permitiu escrever em Paris o livro “Arquipélago de Gulag”. Sua monumental história da KGB, a polícia secreta russa, descrita com base nos depoimentos daqueles que, como ele, foram mandados para a Sibéria.
Ao mesmo tempo em que criticava a apatia dos russos com relação ao regime vigente, Soljenitsin ajudou o mundo a conhecer e combater o comunismo. E de Vermont, nos EUA, onde morava, acompanhou a queda do Muro de Berlim, em 1989, e o fim da União Soviética e do comunismo no Leste europeu, em 1991. Em 1994, com a Rússia redemocratizada, ele voltou a seu país, tendo recebido o tratamento merecido: de herói da resistência.