(Artigo publicado no Correio do Povo de domingo 17/05/09)
O mundo está diante de uma nova carnificina, mas que não tem tido muita repercussão devido à pouca importância do país, o Sri Lanka. Ali vem sendo travado um conflito, há 26 anos, que já deixou mais de 100 mil mortos, sendo 7 mil somente nos últimos três meses. A ONU classificou a situação como “um banho de sangue”. Para variar, se trata de mais um conflito étnico.
O Sri Lanka, cujo nome significa “ilha resplandescente”, é uma antiga colônia britânica, que conseguiu sua independência na mesma ocasião que a Índia, ou seja, em 1948. Conhecida até 1972 como Ceilão, a ilha é famosa pelas especiarias, pelas pedras preciosas e pelas plantações de chá. Da população de 20 milhões de habitantes, 74% são cingaleses e 13% são tâmeis. E é justamente aí que está a razão do conflito. Os cingaleses sempre perseguiram a minoria tâmil. Em 1983, a morte de 13 soldados cingaleses por militantes tâmeis deflagrou a pior explosão de violência étnica da história do país. Centenas de tâmeis foram assassinados pela população em Colombo, a capital do país, e em várias outras cidades. Centenas de milhares de tâmeis perderam suas casas e fugiram para o sul da Índia.
Surgiu então o grupo Tigres Tâmeis, que se destaca pela violência. Se tornou o pioneiro na prática dos ataques suicidas e chegou a ter autonomia aérea e naval. Desde então o país não teve mais paz. Desde janeiro o governo desenvolve o chama de “ofensiva final” contra os rebeldes. O problema é que não morrem apenas militantes, mas também civis – velhos, mulheres, crianças, numa atrocidade que só num dia desta semana teria deixado 378 mortos e mais de 1.100 feridos. Encurralado numa área de apenas 4,5 km², o grupo separatista não permite a saída da população. A situação chegou a um ponto tão crítico que os médicos decidiram abandonar os feridos no único hospital da área sob o controle dos Tigres Tâmeis. Segundo os informes, as instalações médicas, improvisadas em uma escola, foram bombardeadas por dois dias consecutivos.
Nesta quarta-feira, finalmente, o Conselho de Segurança da ONU resolveu se manifestar. Formulou um “pedido internacional” de cessar-fogo. Mas o apelo não foi aceito pelo governo de Colombo, que se disse disposto a levar adiante o que chama de “ataque final” contra os Tigres Tâmeis. Imagens de satélite revelam bombardeios contínuos à zona rebelde. Segundo estimativas da ONU, 6.500 civis morreram e 14.000 foram feridos entre o fim de janeiro e meados de abril.
O histórico dos conflitos étnicos mostra que não haverá uma “solução final”. Os tâmeis não serão exterminados. Será necessário um acordo político. Mas este, pelo que se observa, está muito longe. E até então, muita gente inocente irá morrer. E, como em todo conflito étnico, o ódio gera mais ódio e não se vislumbra uma solução que não seja a intervenção de uma força multinacional de paz. Mas, como eu disse no início, se trata de um país pequeno e sem importância. Portanto…
GOVERNO ANUNCIA VITÓRIA
O governo do Sri Lanka anuncia a vitória sobre os rebeldes Tigres Tâmeis. E, embora os rebeldes tenham proposto depor as armas para acabar com os combates, o anúncio do governo é de que irá até o extermínio total da guerrilha. Com o que, se deduz, morrerá ainda muito mais gente inocente, além das 100 mil que já morreram até agora nos 26 anos de guerra civil.
O objetivo do governo é liquidar com qualquer possibilidade de reestruturação da guerrilha após o cessar-fogo. Daí a violenta ação que vem desenvolvendo e a não aceitação do cessar-fogo. No entanto, é preciso destacar que uma derrota militar não coloca fim à questão cujo problema principal é étnico. A história tem mostrado que não se acaba com conflitos étnicos pela força das armas. É preciso uma solução política. Está aí a comprovar o exemplo recente do Hamas na Faixa de Gaza. A solução para o conflito do Sri Lanka só virá quando a maioria cingalesa passar a respeitar e aceitar conviver com a minoria tâmil. Fora disto, qualquer vitória militar, por mais contundente que seja, será apenas temporária.