Depois de buscar aproximação com o russo Vladimir Putin, o presidente norte-americano Donald Trump deixou claro que o seu grande inimigo hoje é a China. Um inimigo não em termos bélicos, mas, em termos comerciais. A China é o país que mais cresce no mundo, ameaçando a supremacia americana. Daí a necessidade de combate-la. No entanto, como Trump decidiu expandir sua guerra econômica – através de tarifas – por todo o mundo, acabou fazendo com que dois de seus mais importantes aliados – Japão e Coreia do Sul – se unissem à China.
Isto é o que foi anunciado nesta terça-feira, 1, um dia após as três nações asiáticas realizarem seu primeiro diálogo econômico em cinco anos, que tem como objetivo impulsionar e facilitar o comércio regional. Só para se ter noção da importância do bloco, ele representa 20% do PIB e 23% da população do mundo.
DERROTA
Esse encontro dos ministros de comércio exterior dos três países representou uma derrota para Trump. Resultou em decisões cruciais, incluindo a retomada da exportação de semicondutores sofisticados para a China por parte da Coreia do Sul e do Japão. Vale lembrar que em 2022 os EUA haviam aprovado uma lei restringindo o acesso chinês a esses componentes de uso dual, tanto civil quanto militar.
Isto significa que Japão e Coreia do Sul vão fornecer para a China os desenhos de semicondutores para o desenvolvimento de maquinário de alta tecnologia de que precisa. Por aí pode-se perceber a indignação de dois países – Japão e Coreia do Sul – que são dois dos mais importantes aliados dos Estados Unidos, não só em questões econômicas, mas também, em militares. Justamente, pela suposta ameaça da China, as forças de Washington, Tóquio e Seul têm realizado frequentes manobras militares conjuntas. Pois agora os dois países demonstram terem muito mais medo das taxas de Trump do que da ação militar de Xi Jinping.
PARCEIROS
O que tem se visto é uma mobilização global contra as taxas de Trump. A começar aqui pelo Brasil, onde o assunto uniu o Congresso. Passa por toda a Europa, que já estava indignada com Trump em função de sua posição com relação à Otan assim como com a guerra na Ucrânia. E chega ao Canadá, onde o cobiçado “51º estado” impôs tarifas de 60 bilhões de dólares e já prepara um outro pacote de 100 bilhões de dólares. Ações tomadas pelo recém empossado primeiro ministro Mark Carney, que, entre outras medidas, conseguiu fazer com que os supermercados tirassem de suas prateleiras produtos dos Estados Unidos.
E lembrando ainda a ameaça que faz o primeiro-ministro (equivalente a governador) de Ontário, o maior estado canadense. Doug Ford tem lembrado que ele tem na mão a chave da luz que é fornecida para três estados norte-americanos: Michigan Minessota e Nova York.
NACIONALISMO
De sua parte, Trump se vê como um nacionalista. Suas ações são ditas para atrair as indústrias para os EUA. Ele quer tornar os produtos mais caros nos seus países de origem e fazer com que as empresas decidam por mudarem-se para o território americano. Oferece isenção de impostos para essas empresas, que estariam gerando emprego no país e desenvolvendo um produto bem mais barato.
Trump inspirou-se na China, que fez política semelhante, oferecendo áreas para instalação, isenção de impostos e mão de obra barata. E aí vai a diferença. A mão de obra na China é semiescrava. Os trabalhadores ganham uma miséria. Já nos Estados Unidos, embora não exista uma lei para proteger o trabalhador como no Brasil, a mão de obra é muito mais cara. Há um mínimo a ser pago.
MUDANÇA
Assim é que poucas empresas manifestaram até a sua intenção de se mudar para o território americano. Porém, na contrapartida, muitas empresas que estão estabelecidas no país já manifestaram seu interesse de se valarem das ofertas de Trump para ampliar sua produção no país.
Outro objetivo do presidente é valorizar o produto local. Hoje, é mais barato comprar em um supermercado uma geleia produzida na França do que uma gerada de solo americano. E essa geleia americana se for exportada para a França ou qualquer outro país da União Europeia, sofre uma taxação.
Enfim, só resta aguardar para ver se a estratégia de Trump dará certo. Por enquanto, ele só conseguiu colocar um inimigo nos braços de seus aliados.