O presidente Evo Morales agradeceu a Unasul “pela posição firme de defender a democracia e a unidade do povo da Bolívia”. Não poderia ter sido diferente a posição assumida pelos presidentes dos países da União de Nações Sul-Americanas, reunidos ontem em Santiago. A democracia e a integridade territorial são hoje dois preceitos básicos de cada país que precisam ser preservados.
Pode-se não concordar com nada do que Evo Morales vem fazendo. E de fato, suas ações deixam muito a desejar. Mas é preciso ressaltar que ele foi eleito democraticamente e ainda teve o seu mandato referendado no plebiscito realizado a 10 de agosto. O problema é que ele não tem habilidade política para negociar com a oposição. E é aí que entra o trabalho da Unasul. Ajudar no diálogo interno. Trabalho que ficará a cargo da presidente do Chile, Michelle Bachelet, que está presidência rotativa da Unasul, mas que será executado pelo Brasil.
Cabe ressaltar mais uma vez os papéis diferenciados exercidos na crise pelos presidentes Hugo Chávez e Lula. O “dirigente bolivariano” seguiu com seu papel de incendiário. Atribuiu a crise boliviana ao “imperialismo americano”.
O papel de Lula foi ressaltado pelo jornal espanhol “El País”: “Lula impôs condições para viajar a Santiago e as conseguiu. Pediu uma trégua prévia entre Morales e a oposição, o que foi feito. Exigiu a aceitação expressa de La Paz para que ele intercedesse na crise, e a obteve. Mais, os rivais de Morales comemoraram a mediação brasileira, apesar de Lula os ter repreendido por usar a violência para desafiar o governo.”
Ainda segundo o jornal, na cúpula ficou mais clara a distância que se abre entre o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, “que se converteu em ator do conflito ao expulsar de seu país, em solidariedade com Morales, o embaixador dos Estados Unidos, e que chegou a Santiago com um discurso antiimperialista”, e Lula, cujo país “requer gás boliviano e que nos dias anteriores se transformou em estandarte da não intervenção nos assuntos internos do país”.
O fato é que reunião da Unasul para tratar da crise da Bolívia só se tornou viável com a presença de Lula, que antes de aceitar participar teria exigido a presença de Morales e que ele aceitasse os resultados. Isto é o que se depreende de todas as ações que envolveram a realização do encontro em Santiago. Lula estava relutante em participar, por entender que, se não houvesse a concordância de Evo Morales, a ação do grupo seria vista pelo governo boliviano como uma ingerência externa. E “o Brasil não quer ingerências externas no conflito, nem insultos aos EUA”, conforme ressaltou o jornal espanhol El País, o qual destacou o papel cada vez maior de liderança na América Latina, que assume o presidente Lula.
Há algum tempo atrás, diziam que a liderança de Lula na América Latina havia sido sobrepujada por Hugo Chávez. Na realidade, Chávez se expôs mais à mídia, porém, com suas declarações bombásticas mas sem fundamentos. Como está fazendo agora. Enquanto Lula teve todos os cuidados de não ferir suscetibilidades, evitar qualquer coisa que parecesse intromissão externa, Chávez anunciou que iria intervir militarmente se Morales fosse deposto. E mais, comprou uma briga desnecessária com a maior potência do mundo ao expulsar o embaixador americano de Caracas.
Tais fatos deixam evidente quem é a verdadeira e salutar liderança da região.