(Artigo publicado no Correio do Povo de domingo 02/05/10)
O presidente Lula está mais uma vez no destaque internacional com a indicação pela revista Time entre os 25 principais líderes mundiais. A indicação de Lula corresponde também à posição que o Brasil vem assumindo nesse cenário internacional. O Brasil cresceu e Lula também. Alguém preferiria dizer o contrário, que Lula cresceu e o Brasil cresceu com ele. Ocorre que o Brasil vem num crescendo desde julho de 1994, quando aqui foi implantado o Plano Real. Este foi um divisor de águas no país, entre um passado em que se tinha que conviver com uma inflação galopante, fazendo a ginástica do “over night” para não perder muito, e um presente de inflação controlada e desenvolvimento seguro.
Lula soube dar continuidade a esta situação, renunciando à maioria dos princípios que defendia ao seu tempo de sindicalista e se livrando de muitos de seus parceiros que, quando no governo, queriam levar adiante aquelas idéias. Não foi sem razão que pouco antes de Lula assumir a presidência o dólar disparou por aqui e o país viveu um momento de indecisão no seu setor produtivo. Lula assumiu, não só deu continuidade ao que estava sendo feito – exemplo maior a colocação de Henrique Meirelles no Banco Central – como apertou ainda mais o ajuste fiscal. De vez enquanto ainda se tem alguma recaída, como a Lei da Mordaça.
Mas Lula conseguiu ser maior do que seus parceiros. E conseguiu projetar-se no mundo como o operário que assumiu a presidência e fez o país crescer. E projetou-se graças ao seu carisma e à sua facilidade de comunicação, apesar de ser monoglota. Aliás, um fato que coloca sérias restrições para que ele possa levar adiante uma de suas ambições, que é a de tornar-se secretário-geral da ONU. Mas, em suas andanças, Lula foi um ótimo “caixeiro viajante”. Abriu novos caminhos para o setor produtivo brasileiro. Deixamos de ter os EUA como nosso maior e quase que exclusivo mercado – o que causava dependência – e abrimos negócios na Ásia e na África. Nosso intercâmbio cresceu substancialmente, graças ao empresariado brasileiro e à ajuda dada por Lula abrindo caminhos.
Todavia, no âmbito político das relações internacionais nosso líder tem atuação controvertida. Vive adulando Hugo Chávez, sem se importar com o cerceamento à imprensa que há na Venezuela, sem contar outras agressões às liberdades básicas. Bajula a ditadura de Cuba, onde cometeu a asneira de comparar os dissidentes políticos da ilha aos presos comuns de São Paulo. Criou a pretensão de ser mediador no histórico conflito do Oriente Médio entre israelenses e palestinos, sem se dar conta de que as maiores potências vem tratando disto há muito tempo sem nada conseguir. Um outro tema controverso em que Lula está metido é na questão do Irã. Ali, no entanto, até pode ser que ele consiga êxito. Desde que consiga extrair do regime dos aiatolás a segurança que o Ocidente quer. Ou seja, que o programa nuclear iraniano não levará à bomba atômica. A oportunidade para isto é a visita que Lula fará ao país nos próximos dias 16 e 17. Se conseguir isto, será um feito. Se não obtiver êxito, pode se emaranhar na teia de rejeição que envolve o Irã no cenário mundial. E por aqui, no âmbito regional, Lula tem deixado muito a desejar. Não fez nada para amenizar as divergências de Colômbia e Venezuela e fugiu de uma mediação na “guerra das papeleiras”, envolvendo Uruguai e Argentina. Espera-se que faça alguma coisa agora nessa questão que começa a se agravar no Paraguai. Nada disto, pelo que se observa, ofuscou a atuação de Lula pelo mundo. O fato, é que Lula é tão inteligente, que fez de Dilma a candidata à sua sucessão, para perder a eleição, de modo que ele possa se apresentar para concorrer novamente daqui a quatro anos.