(Artigo publicado no Correio do Povo de domingo, 06/06)
O ataque das forças israelenses à frota que levava ajuda humanitária para a Faixa de Gaza, significou um gol contra de Israel na sua competição com os palestinos do Hamas. Estes, estavam reclusos na Faixa de Gaza, passando suas necessidades, sem que o mundo se desse conta. Hoje, o mundo tomou conhecimento do fato. E, na medida em que condena Israel pelo ato, se solidariza com o sofrimento palestino. Assim, Israel fez sufocar o principal motivo que levou os palestinos adeptos do Hamas a ficarem reclusos à Faixa de Gaza: a sua não aceitação da existência do Estado de Israel. Hoje há um clamor mundial pelo fim do bloqueio a Gaza.
E dizer que israelenses e palestinos já assinaram um acordo de paz.
A 7 de setembro de 1993, Israel e OLP assinavam, em Oslo, um acordo de paz, mediado pelos Estados Unidos. Era o chamado acordo terra por paz. Em troca do reconhecimento de Israel, a entidade que passou a ser chamada de Autoridade Nacional Palestina receberia a autonomia sobre Gaza e a maior parte da Cisjordânia. Um processo que seria desenvolvido gradativamente. Até porque, ao longo do período de ocupação, Israel fomentou o estabelecimento de colônias judaicas na Cisjordânia e em Gaza. E, pelo acordo, a maioria dessas colônias deveria ser desativada. Foi justamente a contrariedade de colonos judeus radicais que levou um deles a assassinar, em 1995, a Yithzak Rabin, o primeiro-ministro israelense que assinara a paz com a Arafat e com quem, e mais o chanceler Shimon Peres, compartilhara o Prêmio Nobel da Paz de 1993.
Mesmo assim o processo avançou. Yasser Arafat discutia com o então primeiro-ministro de Israel Ehud Barak a forma de concessão de autonomia para as cidades palestinas da Cisjordânia. Porém, forçou demais e a corda acabou arrebentando. Barak estava fazendo tantas concessões que desagradava a direita israelense. Foi quando então Ariel Sharon entrou em ação, fazendo uma visita à Esplanada das Mesquitas, o que provocou o início da revolta palestina chamada Intifada, a derrubada do governo de Barak, a ascensão de Ariel Sharon, ao poder, com o conseqüente fim das negociações de paz. Em dezembro de 2008 e janeiro de 2009, em represália a foguetes que eram lançados contra cidades israelenses, houve o ataque de Israel à Faixa de Gaza, que deixou mais de 1400 palestinos mortos, incluindo-se mais de 300 crianças, segundo números da ONU, que também teve a sua sede na região destruída. Ou seja, nos últimos tempos, muita confrontação e pouco diálogo.
O escritor e jornalista israelense Amos Oz, um dos fundadores do movimento “Paz Agora”, coloca com muita propriedade a questão do Hamas. Depois de criticar o uso excessivo da força por seus patrícios, ele diz o seguinte: “…o Hamas não é apenas uma organização terrorista. O Hamas é uma idéia. Um idéia desesperada e fanática nascida de desolação e frustração de muitos palestinos. E idéia alguma jamais foi derrotada pela força, nem por cercos, nem por bombardeios, nem soterrada sob as esteiras dos tanques de guerra ou atacada por forças especiais da Marinha. Para derrotar uma idéia é preciso oferecer uma idéia melhor, mais atraente e mais aceitável”.
E completo dizendo que, o mais atraente e aceitável hoje para os palestinos é a criação do seu Estado. Qualquer debate que fuja desse tema estará fugindo da realidade.