(Artigo publicado no Correio do Povo de domingo, 18/07/10)
Colômbia e Venezuela estão mais uma vez em rota de colisão, tanto que o governo de Caracas chamou o seu embaixador em Bogotá para consultas, o que no jargão diplomático significa o primeiro protesto. O motivo foi a acusação do governo de Álvaro Uribe de que a Venezuela estaria dando guarida a guerrilheiros das Farc. O governo colombiano falou na existência de um vídeo feito no chamado “Acampamento Bolivariano”, onde estariam as lideranças das Farc que compõem o bloco Caribe da organização. Nesse vídeo apareceriam o atual líder do movimento Ivan Marques e outros integrantes da cúpula, como Rodrigo Granda. A situação está tão tensa que o ministro da Defesa Gabriel Silva Luján anunciou a constituição de mais uma base militar junto à fronteira com a Venezuela.
O presidente venezuelano Hugo Chávez aproveita a crise para tentar promover um racha interno na Colômbia. Diz que essa ação é uma iniciativa de Uribe e que não conta com o respaldo do presidente eleito Juan Manoel Santos. O que é muito difícil. Santos tem mantido o silêncio, pois atualmente não ocupa nenhuma função. Foi ministro da Defesa e é apenas o presidente eleito. Não se pode esquecer que o que influiu fundamentalmente na vitória de Santos foi o governo de Álvaro Uribe, que tem 80% de aprovação do povo colombiano. Pois, com o apoio da máquina estatal, Santos bateu nos últimos dias de campanha na tecla do combate à guerrilha das Farc. Dizia que somente ele, que fora ministro da Defesa de Uribe, poderia dar continuidade no combate ao narcotráfico. E isto pesou muito, porque os colombianos, que viveram anos em meio aos atentados e assassinatos, tiveram em Uribe o governante que lhes devolveu a confiança, tornando suas principais cidades seguras novamente. Em contrapartida, seu opositor Antanas Mockus acenava muito com as questões ambientais que, no atual contexto para os colombianos, estão longe de se comparar com a segurança.
Voltando à crise com a Venezuela, Uribe declarou que vai recorrer a instâncias internacionais a respeito de sua denúncia. E nesse sentido já apelou à Organização dos Estados Americanos para que marque uma reunião do Conselho Permanente para analisar o fato. Reunião que já foi marcada para a próxima quinta-feira, às 10 horas. O governo da Colômbia também pediu a três países para terem uma especial colaboração no diálogo. São eles, Espanha, Cuba e Brasil. Pois neste aspecto é preciso salientar que o Brasil, por sua relevância na América do Sul, deveria ser automaticamente o mediador deste conflito. Assim como deveria ter sido o mediador da “guerra das papeleiras” entre Uruguai e Argentina, bem como das desavenças que vêm mantendo Chile e Peru por limites marítimos. Mas o governo brasileiro está alheiro aos acontecimentos da sua vizinhança. Sequer fez alguma coisa pelos presos políticos de Cuba. Está preocupado é em ser mediador do Irã e, pretensiosamente, se alça como interlocutor para o conflito entre israelenses e palestinos, do qual sequer conhece uma pequena parte da história. Assim, quem poderá ter papel mais relevante neste caso é a Espanha, que, por sinal, foi quem, juntamente com a Igreja Católica, resolveu a questão dos presos de Cuba.