(Artigo publicado no Correio do Povo de domingo, 15/08/10)
Três dias depois de assumir o poder na Colômbia, Juan Manuel Santos restabeleceu as relações diplomáticas com a Venezuela, rompidas a 22 de julho, quando o então presidente Álvaro Uribe acusou a Venezuela de dar abrigo às guerrilhas das Farc e do ELN. E cinco dias depois da posse, Santos teve que enfrentar o primeiro atentado em seu governo, com a explosão de um carro-bomba defronte a Rádio Caracol em Bogotá. Reunidos na cidade onde morreu Simon Bolívar, Santa Marta, os presidentes Juan Manoel Santos e Hugo Chávez “decidiram relançar a relação bilateral restabelecendo as relações diplomáticas entre os dois países, com base em um diálogo transparente e direto, privilegiando a via diplomática”, afirma o texto da declaração conjunta.
Chávez, que no domingo fizera um apelo às Farc, para se desarmar e entregar os reféns que tem em seu poder, prometeu também combater os guerrilheiros que porventura estiverem em seu país. Algo para ver se concretizar. O comércio bilateral, que havia sido interrompido, volta a ser gradativamente restabelecido. Enfim, tudo volta às boas, com Chávez fazendo uma declaração de amor à Colômbia. E tudo se deve fundamentalmente ao recém empossado presidente Juan Manuel Santos na Colômbia, de quem não se esperava muito, porque fora o ministro da Defesa de Uribe. Porém, antes mesmo de assumir ele já prometera o diálogo, que agora coloca em prática.
Resta ver se este momento em clima de lua de mel irá ter continuidade. E se Chávez irá mesmo combater os guerrilheiros das Farc em solo venezuelano. Aliás, ele já poderia ter prometido isto para Uribe e então não haveria a crise que surgiu. No entanto, Chávez não “cruzava” com Uribe. E, além do mais, a crise o colocou na mídia internacional, como ele gosta.
É preciso destacar, no entanto, que o motivo que levou Santos a negociar é de ordem econômica. Atende o interesse do empresariado colombiano. Afinal, a Venezuela é o maior parceiro comercial. De lá vem o petróleo e para vão os alimentos e manufaturados que a Colômbia produz. Interromper este fluxo significa grandes prejuízos para ambos os lados. Daí a busca imediata de uma negociação, com a finalidade de reatar as relações entre as duas nações.
Mal concluiu o processo de reatamento com a Venezuela, Santos já teve que se ver com o primeiro atentado terrorista de seu governo. A explosão de um carro bomba junto ao prédio da Rádio Caracol, em Bogotá, promoveu grandes estragos, ferimentos em nove pessoas, mas, felizmente, nenhuma vítima fatal. O atentado é uma forma de a guerrilha mostrar que ainda está viva e que está desafiando o presidente que assume. Fato que não é novidade. Em 2002, no momento em que Uribe assumia, as Farc atacaram em um bairro situado a três quadras do palácio presidencial, matando 19 pessoas. Assim, o ataque desta quinta-feira parece estabelecer uma relação com a perda de força da guerrilha.
Santos prometeu o diálogo, que por sinal, já colocou em prática no restabelecimento de relações com a Venezuela de Hugo Chávez. No entanto, não se pode esquecer que ele, Santos, foi, como ministro da Defesa, o executor da política de força de Uribe. E que, portanto, pode voltar a praticar tal política.