(Artigo publicano no Correio do Povo de domingo, 22/03)
El Salvador é um pequeno e pobre país da América Central que se constituiu num dos maiores palcos aqui na região da disputa decorrente da Guerra Fria. Por 12 anos, de 1980 a 1992, este país cuja metade da população está abaixo da linha de pobreza, viveu uma sangrenta guerra civil que deixou mais de 75 mil pessoas mortas. A guerrilha de esquerda era representada pela Frente Farabundo Marti de Libertação Nacional, que entregou as armas ao final do conflito. Depois disto, o país ingressou nos preceitos democráticos que passaram a vigorar na maioria dos países da América Latina. E quem assumiu o governo foi a direitista Arena, Aliança Republicana Nacional. A Arena ainda está no poder, mas no domingo foi apeada, justamente pelo representante da ex-guerrilheira Frente Farabundu Marti de Libertação Nacional. O jornalista Mauricio Funes, amigo de Lula e casado com uma brasileira, foi o vencedor das eleições presidenciais e assim vai levar a FMLN ao poder. A ex-guerrilha salvadorenha transformada em partido político se constitui num excelente exemplo, especialmente, para as Farc da Colômbia, de como chegar ao poder pela via democrática.
Em El Salvador como em toda a América Central, a economia é totalmente dependente dos EUA. E, por saber disto, o presidente eleito não se deixou contaminar pelo esquerdismo radical de Hugo Chávez. Ao invés de aderir à Aliança Bolivariana, sua primeira manifestação depois de eleito foi pela “reconciliação nacional” e pela aproximação com os EUA.
E por falar em Chávez, em uma semana em que decidiu bater de frente com os governadores oposicionistas, ao federalizar os portos e aeroportos do país, o líder bolivariano resolveu partir também para cima do setor bancário. Decidiu privatizar o Banco da Venezuela, pertencente ao grupo Santander. É mais uma briga grande que compra o dirigente que, gradativamente, vai assumindo o controle de tudo na Venezuela. E o pior é que ninguém pode contestá-lo, porque ele teve a habilidade de colocar no Congresso e no Judiciário gente de sua confiança, de modo a aprovar naquelas casas tudo o que quer. Assim o fez três dias antes de anunciar a federalização dos portos e aeroportos.
E é justamente aí que surgem dúvidas sobre acusações levantadas por Chávez contra os seus opositores, como está fazendo agora contra o ex-governador e atual prefeito de Maracaibo Manuel Rosales, cuja prisão foi solicitada pela Procuradoria Geral Venezuelana. Rosales é acusado de enriquecimento ilícito. Não teria sabido explicar seus rendimentos entre 2002 e 2004. Aí fica a dúvida. Sabe-se que Chávez só surgiu na Venezuela porque aqueles que dominavama cena política eram altamente corruptos. Foi em nome do combate a essa corrupção e do enriquecimento às custas do Estado que Chávez ganhou força. Portanto, a dúvida fica nessa questão: Rosales é mais um daqueles corruptos? Ou é mais uma vítima do aparato estatal que está em mãos de Chávez?
Vale ressaltar que dúvidas dessa natureza só persistem em países que não tenham um sistema democrático pleno. Ou alguém acredito que é democracia isto que vigora na Venezuela?