(Artigo publicado na edição de domingo, 08/11/09)
A Alemanha comemora nesta segunda-feira 20 anos da queda do Muro de Berlim. A derrubada desse nefasto marco físico trazia junto o fim dos regimes comunistas que, sob a tutela da União Soviética, dominaram a Europa do Leste, desde o fim da Segunda Guerra até aquele ano de 1989. Assim, entre a euforia e a incredulidade, os alemães, e todo o mundo livre, comemoraram a queda do muro, que era o símbolo da incompetência do comunismo. O regime tinha que manter seus cidadãos presos para que eles não fugissem em busca do mundo livre do capitalismo.
A reunificação da Alemanha custou para a então Alemanha Ocidental a respeitável soma de 1 trilhão e 250 bilhões de euros. Os orientais já começaram ganhando naquela ocasião, além da liberdade, uma loteria, pois a sua moeda que valia três vezes menos que o então marco alemão ocidental, foi trocada na cotação de um por um. Todavia, passado todo esse tempo, uma pesquisa recente revela que 20% dos alemães tem saudade do tempo da divisão. E isto envolve, principalmente, os cidadãos do Leste, que tiveram que fazer um grande esforço para se adaptarem ao trabalho do mundo capitalista. Simplesmente, porque estavam acostumados a uma economia estatizada e centralizada. Tudo pertencia ao estado que dava emprego. Só que, a maior parte desses empregos estava minando o próprio regime. O cidadão, por exemplo, trabalhava numa fábrica que há mais de 20 anos produzia um mesmo tipo de refrigerador, não importando que aquele tipo estivesse obsoleto pelo espaço interior pequeno e pelo alto consumo de energia. Esse tipo de fábrica levou à ruína o comunismo. E aquele cidadão, que junto com aquela fábrica havia parado no tempo, não se adaptou ao mundo competitivo do capitalismo. E seguramente são esses que ficaram desempregados, por não se adaptarem às mudanças, que compõem o contingente dos 20% saudosos.
A constatação é de que o processo de reunificação já foi absorvido, embora tenha deixado as suas seqüelas. O que é natural. Afinal, foram 50 anos de sistemas de vida completamente diferentes. Hoje o país tem problemas decorrentes da situação internacional, tal como desemprego, ou da situação da Europa em particular, como migração. Mesmo assim, vai em frente, liderando, junto com a França, o processo de reunificação da Europa, que já conta com 27 integrantes, muitos dos quais compunham a antiga União Soviética.
Angela Merkel foi reeleita para o governo. Sua reeleição demanda a análise de alguns fatores, de ordem interna e externa. No âmbito interno, é surpreendente o fato de uma dirigente ser reeleita quando o país atravessa a maior recessão do período pós-guerra, tendo o PIB do país caído este ano 6,2%, o que corresponde a uma perda de cerca de 3 trilhões de dólares. Algo muito difícil para uma nação que foi reunificada há 20 anos e que, desde então, luta para estabelecer uma igualdade econômica entre os seus cidadãos. Pois, apesar de tudo, o povo alemão demonstrou confiar em Merkel para a recuperação do país. No âmbito externo, a eleição alemã passa uma lição para a América Latina, que insiste em manter um arcaico sistema presidencialista, onde os seus dirigentes acabam sendo tentados a mudar a Constituição para buscar a sua reeleição por mais de uma vez. Num sistema parlamentar não há restrição. O governante pode ficar 20 anos no poder ou cair em um mês. Tudo depende de sua conduta. E da vontade do povo, logicamente. Mas, voltando ao tema do artigo, salve o 9 de novembro de 1989.