Morreu nesta segunda-feira, aos 96 anos, o diplomata americano Lincoln Gordon. Ele foi embaixador dos EUA no Brasil de 1961 a 1967. Ou seja, num dos períodos mais críticos de nossa história recente. Vivenciou por aqui o movimento da “Legalidade” e a Revolução de 64, que instaurou a ditadura no país. Tive oportunidade de conversar com ele em 1980, durante uma visita aos EUA, ocasião em que se tornou mais visível o seu jeito afável, tranquilo e educado. Procedimentos que, teoricamente, não combinam com um homem de intensos trabalhos nos bastidores para desestruturar o regime vigente.
Em 1964, após o golpe que derrubou o presidente João Goulart, Gordon foi acusado de ter manobrado para o golpe, em conluio com a CIA. Ele sempre negou esse envolvimento. No entanto, em 1976, uma década depois de deixar o cargo de embaixador, Gordon admitiu que a administração do então presidente americano Lyndon Johnson estava se preparando para intervir militarmente para impedir que um esquerdista tomasse o poder no Brasil. E era bem possível que fizesse. Os EUA tiveram que engolir Cuba, sofrer o vexame da frustrada operação da Baía dos Porcos, e, como tal, não admitiam um novo regime comunista na região. Ainda mais num país com as dimensões e a importância do Brasil.
Todos esses movimentos, logicamente, foram acompanhados por esse senhor simpático, de voz mansa e que, ao morrer ontem, levou junto muita informação valiosa sobre nossa história recente.