A posse de Keiko Fujimori na Presidência do Peru, nesta terça-feira 28, representa um dos acontecimentos políticos mais relevantes da América do Sul em 2026. Primeira mulher eleita democraticamente para comandar o país, ela chega ao Palácio de Governo após uma disputa apertada e com a promessa de devolver estabilidade a uma nação que teve sucessivas crises institucionais na última década. Entre as prioridades anunciadas está o endurecimento do combate ao crime organizado, inspirado no modelo de segurança adotado por Nayib Bukele em El Salvador, incluindo a construção de um megapresídio e mudanças na legislação penal.
A criminalidade tornou-se o principal tema da campanha peruana diante da expansão de quadrilhas ligadas ao narcotráfico, à extorsão e ao crime transnacional. A expectativa do novo governo é recuperar o controle de áreas dominadas por organizações criminosas, ainda que o modelo salvadorenho continue sendo alvo de debates internacionais por seus impactos sobre direitos civis.
SEGURANÇA
O chamado “modelo Bukele” transformou-se em referência para diversos governos conservadores latino-americanos. A combinação de prisões em massa, ampliação dos poderes das forças de segurança e construção de grandes complexos penitenciários passou a ser apresentada como resposta rápida ao avanço das facções criminosas.
Keiko Fujimori pretende adaptar essa estratégia à realidade peruana. O desafio será equilibrar eficiência no enfrentamento ao crime com o respeito às garantias constitucionais, tema que deverá acompanhar todo o seu mandato.
MAPA
A eleição peruana reforça uma tendência de fortalecimento de governos de centro-direita e direita em parte da América do Sul. Na costa do Pacífico, destacam-se Aberlardo de la Espriella, na Colômbia; Daniel Noboa, no Equador; José Antonio Kast, no Chile; Santiago Peña, no Paraguai; Rodrigo Paz, na Bolívia; Javier Milei, na Argentina: e agora Keiko Fujimori, no Peru.
No Cone Sul, o Brasil continua à esquerda sob Luiz Inácio Lula da Silva, enquanto o Uruguai, governado por Yamandú Orsi, embora de esquerda, mantém uma tradição de maior moderação política e diálogo institucional, sem reproduzir o elevado grau de polarização observado em outros países da região.
VENEZUELA
Na Venezuela, persistem discussões sobre possíveis mecanismos de diálogo entre governo e oposição, tema acompanhado de perto pela comunidade internacional. Diversos setores defendem iniciativas voltadas à normalização institucional e à realização de eleições com garantias amplas, embora o ambiente político permaneça complexo e marcado por desconfianças mútuas.
A oposição continua fragmentada, e a participação de suas principais lideranças em eventuais negociações é considerada decisiva para que qualquer processo obtenha legitimidade interna e reconhecimento externo. No entanto, o governo interino de Delcy Rodriguez anunciou a formação de uma comissão para discutir a redemocratização, integrada, entre outros, por deputados que eram oposicionistas na Assembleia Nacional, no período 2015 a 2020, quando foi a mesma foi destituída pela ditadura de Nicolás Maduro. Surpreende o fato de, até agora, a principal líder oposicionista do país, Maria Corina Machado, não ter sido convidada.
PERSPECTIVA
A posse de Keiko Fujimori amplia o peso político do campo conservador em boa parte da América do Sul e reforça uma agenda centrada em segurança pública, combate ao crime organizado e aproximação com os Estados Unidos. O novo governo peruano também buscará recuperar a confiança dos investidores e reduzir a instabilidade que marcou a política nacional nos últimos anos.
Mais do que uma simples alternância de poder, a mudança em Lima confirma que segurança pública e combate ao crime organizado passaram a ocupar posição central no debate político latino-americano. Resta saber se a estratégia de endurecimento produzirá resultados duradouros sem comprometer o Estado de Direito, um equilíbrio que será determinante para o futuro do Peru, assim como para outros países da região.