(Artigo publicado no Correio do Povo de domingo, 02/01/11)
No momento em que se entra na segunda década deste Século 21, surgem as especulações sobre o papel que irão desempenhar os países que têm se tornado os principais atores do cenário mundial. Felizmente, estas especulações são muito mais de ordem econômica do que de ordem política ou militar. E quem desponta neste cenário é justamente o país que experimentou o maior crescimento na década que está terminando, a China. País que caminha para se tornar a segunda economia do mundo.
Assim, há que se analisar a China dos próximos dez anos. Para isto me baseio na análise feita por Dominic Barton, presidente mundial da Consultoria McKinsey, em matéria publicada pela revista Exame, na edição que circulou a 29/12/2010. Para ele, a China vive a quarta era de desenvolvimento capitalista. A primeira, evidentemente, foi aquela iniciada lá nos anos 70, pelo líder transformador Deng Xiaoping, idealizador do modelo que abriu o país ao capitalismo, porém, manteve o regime político fechado. Aponta como símbolo desta era a cidade Shenzhen, próxima a Hong Kong. A segunda era teria vindo nos anos 90, tendo como epicentro a cidade de Xangai, que se tornou modelo de modernização. Algo que, aliás, tive oportunidade de constatar em junho último, quando visitei aquela cidade. Impressiona pela pujança, pela organização, pela infraestrutura e pelas grifes ali presentes. A terceira era, na visão de McKinsey, começou já nos anos 2000, com a reforma bancária. A “limpeza” dos bancos e a sua privatização permitiu que se tornassem hoje alguns dos maiores do mundo. E a quarta era começou a ser concebida depois da crise financeira de 2008, quando os chineses perceberam que não poderiam depender do mercado consumidor americano. Daí passaram a incentivar o consumo doméstico, que hoje equivale a 35% do PIB, mas que deve chegar logo aos 40%. A quarta vertente teria trazido também a preocupação com o meio-ambiente e com a educação. A China quer passar de vilã à modelo de sustentabilidade. E já se vislumbra uma quinta era, que é a da inovação.
Bem, a China, com o Brasil, a Índia e a Rússia, integra o Bric, o grupo de países em desenvolvimento com melhores possibilidades para os próximos anos. E então é de se perguntar como o Brasil fica nesse cenário? Pois fica com altos e baixos. Vamos começar pelo que está mal. E aí salta aos olhos a infraestrutura. Não me canso de repetir que o Brasil apostou no transporte rodoviário, sucateou o ferroviário e o hidroviário, porém não investiu nada em estradas, ao longo de muitos anos. Não é sem razão que a OCDE, a Organização para o Comércio e o Desenvolvimento Econômico, divulgou um estudo abrangendo os 20 países em desenvolvimento com maior potencial, apontando que o Brasil é o pior deles em infraestrutura. O estudo critica o fato de o Brasil ser um país de dimensões continentais e não usar ferrovias ou hidrovias. Basear seu transporte só na rodovia, sendo que são raras as estradas no país que se pode dizer que estão em plenas condições.
A propósito, McKinsey diz que “a visão chinesa era clara – a infraestrutura promove aumento de competitividade e, portanto, deve ser implantada mesmo antes de ser necessária. Hoje pode-se ir às partes mais remotas da China e haverá uma bela estrada de seis pistas. Um dado recente mostrou 97 aeroportos em construção, ao mesmo tempo”. Aqui, estamos inaugurando um trecho da BR-101, com quatro pistas, e achamos que estamos fazendo grande coisa. Então, mesmo que venhamos a fazer maciços investimentos por aqui em infraestrutura – com vistas à Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016 – mesmo assim estaremos muito longe dos chineses.
Segundo a avaliação da maior parte dos economistas, esta falta de infraestrutura, aliada a outros fatores, não nos permitirá continuar crescendo a um ritmo de 8%, conforme chegamos a experimentar neste ano de 2010. Teremos que nos contentar com algo em torno de 5%. Mesmo assim, temos que atentar para outras questões cruciais como o câmbio, por exemplo. Dados referentes ao terceiro trimestre indicam que tivemos uma elevação de 7,4% da importação de bens e serviços e um recuo de 1,6% da indústria de transformação. Embora o aumento das exportações, nosso saldo comercial vem diminuindo, porque as importações crescem em volume maior. Temos que tratar de reduzir o Custo Brasil com as reformas tributária/fiscal, previdenciária e trabalhista. Em suma, temos que aproveitar o bom momento que a economia mundial nos oferece. Afinal, a maior potência do mundo ainda tenta sair da crise financeira de 2008, enquanto que a Europa segue afundada no déficit fiscal da maior parte dos países membros da comunidade. E, apesar de tudo, as previsões para nós são boas. Dados do Banco Itaú BBA, levantados por Marcelo Onaga, por exemplo, “mostram que o nível de investimento produtivo – destinado à modernização e ampliação de fábricas, minas e fazendas, desenvolvimento de produtos, construção de imóveis e obras de infraestrutura – devem triplicar ao longo da próxima década. A previsão é sair do atual patamar de R$ 600 bilhões para R$ 1,8 trilhão em 2020”.
Que assim seja, para não perdermos o bonde da história. Afinal, a projeção para nós a curto prazo é de nos transformarmos na quinta economia do mundo. Atrás dos chineses, mas numa posição muito boa.