(Artigo publicado no Correio do Povo de domingo, 13/09/09)
O presidente francês Nicolas Sarkozy veio ao Brasil fazer negócios de 24 bilhões de dólares na venda de submarinos e helicópteros. Uma venda que poderá chegar a 31 bilhões se o Brasil, conforme indica a vontade do presidente Lula, vir a comprar 36 aviões caças da França. Um acordo destes trás múltiplas implicações. Em primeiro lugar, a cumplicidade dos dois países. A França objetiva não só o dinheiro que irá ganhar do Brasil, mas também que o país seja uma base para a expansão de seus negócios para a América Latina. Já o Brasil espera da França o apoio forte para suas pretensões junto à ONU e à OMC. É ver para crer. Quanto à ONU, a França seguramente vai apoiar o ingresso do Brasil como membro permanente, mas sem o direito à veto, que é uma exclusividade de apenas cinco privilegiados do organismo, entre os quais a própria França. Quanto à OMC, outro problema. O que o Brasil quer é que os países ricos acabem com os subsídios que concedem a seus produtores. Ora, na França, cada vez que um governante cogitou em reduzir os subsídios, os agricultores cercaram a Torre Eiffel com seus tratores e suas vacas. Então, poucas perspectivas por aí.
Segundo o presidente Lula, o Brasil precisa reforçar o controle de suas fronteiras, especialmente na Amazônia. Bem, é essencial que o país tenha um bom sistema de defesa como fator de dissuasão. Não temos pretensões de conquistas, mas, realmente, temos que pensar na nossa defesa. Não se pode descartar os interesses e cobiças que pariam sobre a floresta. De onde, diga-se de passagem, já vem sendo extraídas muitas riquezas na área da biodiversidade, o que é feito por organizações camufladas de ONGs que, teoricamente, estão na Amazônia para ajudar a população local. E agora temos o Pré-Sal como fator de cobiça.
O tratado que estão firmando Brasil e França é preciso ser encarado sob o prisma da nova conjuntura internacional pós-Guerra Fria. Esse período marcou a ascensão dos EUA como única potência do planeta, tendo inclusive invadido o Iraque, apesar da contestação da ONU e de países aliados como França e Alemanha. Agora, sob Barack Obama, o país tenta corrigir os erros da administração Bush. No entanto, ninguém garante que Obama possa ser bem sucedido nesse intento e, tampouco, ninguém garante que não possa vir um novo George Bush logo ali adiante. Assim, o acordo militar Brasil e França atende a alguns objetivos precípuos. Em primeiro lugar, o Brasil reforça sua segurança para proteger áreas cobiçadas como a Amazônia e o Pré-Sal. Em segundo lugar, acerta uma parceria com a França – país política e militarmente forte, para compor uma força que se contraponha à presença absoluta dos EUA no mundo. No âmbito regional, tivemos uma aliança da Colômbia e Peru com os EUA, e da Venezuela, arrastando Bolívia e Equador, com a Rússia. Um tênue resgate da Guerra Fria. O Brasil sai dessa bipolaridade ao acertar-se com uma França, que tem primado pelo equilíbrio em suas ações.
No entanto, os EUA decidiram entrar nas negociações para a compra de aviões caças pelo Brasil. O diferencial apresentado pela França de transferir tecnologia para a venda de seus aviões Rafale, está sendo anulado pelo governo americano, que promete transferir a tecnologia do caça F-18 Super Hornet ao Brasil. Se assim for, a compra vai ter que ser do avião americano, cujo desempenho é conhecido internacionalmente. O francês Rafale, produzido pela empresa Dassault, nunca foi vendido para nenhuma país. E a fábrica está à beira da falência. A venda de aviões para o Brasil seria a salvação da empresa. Como se vê, há uma substancial diferença nas ofertas. Caso os EUA consigam vender seus aviões para o Brasil, estarão também alterando a aliança geopolítica que se formava entre Brasil e França. Uma aliança que visava justamente manter uma posição equidistante de EUA e de Rússia, sendo, ao mesmo tempo, um poder de persuasão para ações de qualquer uma dessas potências. Enfim, é um grande jogo que se estabelece no tabuleiro da política internacional, e cada um dos competidores está jogando suas cartas.