(Artigo publicado no Correio do Povo de domingo, 06/12/09)
Diante da decisão do presidente Barack Obama de mandar mais 30 mil soldados para o Afeganistão, já estão surgindo comparações dele com George Bush. A Folha, por exemplo, publicou um artigo cujo título é “A guerra de George W. Obama”, sugerindo que o atual presidente se deixou influenciar pelas ações bélicas de seu antecessor e deixou de lado a sua veia diplomática, que tanto preconizou durante a campanha. Pois é preciso resgatar a campanha para lembrar que Obama não mudou de posição. Ele sempre se manifestou contra a guerra do Iraque e a favor da guerra no Afeganistão. E por que? Por que a guerra no Afeganistão era plenamente justificável. Era lá que estavam Bin Laden e seus asseclas da Al Qaeda, assim como o nefasto regime do Talibã, que lhes dava guarida. Então, era preciso atacá-los. O que foi feito por Bush. Só que, ele não tinha terminado o serviço no Afeganistão e resolveu se voltar para o Iraque, atendendo a pressão das organizações que lhe davam apoio: do petróleo, da construção, as armas, etc. Assim, criou-se uma história de armas de destruição em massa de Saddam Hussein e fez-se a guerra. Com base numa mentira. Resultado: os EUA se afundaram no Iraque e os terroristas parcialmente derrotados no Afeganistão começaram a se reestruturar, ameaçando voltar ao poder. É por isto que Obama deixou claro durante a campanha que pretendia sair do Iraque e se voltar para o Afeganistão. Que é o que está fazendo agora.
A execução, no entanto, não é fácil. Obama está sob fogo cerrado. Não só opositores republicanos mas até mesmo aliados democratas tem questionado a medida, tendo em vista que é cada vez menor nos EUA o apoio a essa guerra, assim como ao conflito do Iraque. Obama quer mandar o novo contingente até a metade do ano que vem, passando a somar 100 mil soldados no Afeganistão. Com isto, pretende lançar uma operação maciça contra o Talibã e a Al Qaeda, ao mesmo tempo em que será desenvolvido um intenso programa de treinamento das forças afegãs, para assumirem o controle do país. Cumpridas essas etapas, os EUA, segundo o plano de Obama, se retirariam do Afeganistão até o final de 2011.
Na teoria muito bem! Na prática é que se dá a diferença, segundo um bom número de parlamentares americanos. E a razão que invocam é fato de os EUA já estarem há oito anos no Afeganistão sem um resultado definitivo. Bem, é preciso avaliar que, quando os EUA estavam concentrados só no Afeganistão, conseguiram derrotar o Talibã, botar a Al Qaeda a correr e colocar um regime aliado no poder. Porém, e aí é que vem o grande problema, ao invés de concluir o trabalho, se voltaram para o Iraque. E aí, nem um e nem outro. Por isto Obama quer tentar sair o mais depressa do Iraque e fazer uma ação concentrada no Afeganistão. Se for bem sucedido, se consagrará. Se for mal, pode perder a reeleição, porque serão mais mortes e dinheiro desperdiçados.
De outra parte, Obama colheu nesta quinta-feira o primeiro resultado concreto de sua política de reaproximação com a Rússia. Obteve a promessa do presidente Dmitri Medvedev de que a Rússia vai colaborar no Afeganistão. Esta colaboração é de suma importância, pois se trata de um país que por 10 anos esteve envolvido em território afegão, se tornando, portanto, um profundo conhecedor das idiossincrasias daquele país. Além disto, a possibilidade de trânsito por território russo é outro aspecto importantíssimo. Para quem está atolado em duas guerras, Iraque e Afeganistão, e tendo ainda que resolver as questões nucleares do Irã e da Coréia do Norte, é muito mais interessante ter a Rússia do lado, do que estar em confronto com ela por causa de sistemas de mísseis na Europa, como queria Bush.