(Artigo publicado no Correio do Povo de domingo, 16/01/11)
Quem diria! O Brasil está sendo considerado como país irmão pela Argentina. Tudo pela posição que Brasília tem assumido na questão referente às ilhas que os argentinos chamam de Malvinas e reivindicam sua soberania, e os britânicos chamam de Falkland e mantém sua ocupação. O Brasil já manifestou nos mais diversos foros internacionais a sua posição a favor da soberania argentina sobre as ilhas. E foi em respeito a esta posição que, esta semana, negou autorização a uma embarcação inglesa, HMS Clyde, para atracar em porto do Rio de janeiro, para reabastecimento. O fato foi saudado pelo governo argentino como “uma prova de irmandade”, conforme ressaltou o chanceler Héctor Timerman. Ele ressaltou que a decisão é fruto dessa construção de aliança estratégica que Brasil e Argentina têm montado, demonstrada não só pelo comércio, mas também por aspectos políticos, como esse reconhecimento de soberania sobre as Malvinas/Falkland.
O apoio à Argentina poderia causar um mal estar em Londres, mas isto não ocorreu. Tanto que o Ministério de Relações Exteriores britânico afirmou respeitar a decisão brasileira. O porta-voz do Foreign Office disse que o Reino Unido tem “uma estreita relação com o Brasil”, lembrando que no ano passado os dois países assinaram um tratado de cooperação na área da defesa, o qual se constitui em “um bom exemplo dos sólidos vínculos atuais”. Nada, portanto, que relacionasse a alguma mudança de postura do governo de Dilma Rousseff. Aliás, esta só está dando sequência ao que vem sendo praticado pelo Itamaraty e foi referendado em agosto do ano passado por Lula, na cidade de San Juan, quando defendeu o direito argentino de reivindicar sua soberania sobre as Malvinas. Algo muito relativo, diga-se passagem. Afinal, direito de reivindicar todo mundo tem. Já direito de posse é outra coisa.
Quanto ao navio britânico, que é usado no patrulhamento das Malvinas/Falkland, acabou indo abastecer no Chile. E aí é de se perguntar se este apoio chileno não causa mal estar em Buenos Aires. Não se pode esquecer que, em 1980, Argentina e Chile estiveram na iminência de uma guerra, por causa de três pequenas ilhas no Canal de Beagle, no extremo Sul da América. Aliás, fazer uma guerra era, na ocasião, o grande objetivo dos militares que comandavam a Argentina, Tanto que a guerra com o Chile só foi evitada pela intervenção do Papa, mas dois anos depois os militares argentinos se metiam na trágica aventura de tentar recuperar pela força as Malvinas/Falkland. O objetivo da junta governativa argentina era claro: usar um tema de união nacional para tentar se perpetuar no poder. O regime vinha vacilando em função da crise econômica e pelas crescentes denúncias de violação dos direitos humanos, com as torturas e mortes dos oponentes políticos. Porém, a junta comandada na ocasião pelo general Leopoldo Galtieri não dimensionou a disposição da Coroa britânica em manter o arquipélago. A humilhante derrota serviu para a derrubada do regime e a volta da democracia no país. Mas deixou a Argentina enfraquecida no cenário internacional para reivindicar sua posse sobre as ilhas. Posição que se mantém, pois não se vislumbra possibilidade de que o atual status quo venha a mudar.
Mas, voltando às relações Brasil-Argentina, a primeira viagem ao exterior do chanceler brasileiro Antonio Patriota foi à Argentina, nesta segunda-feira. Justo para preparar a primeira visita ao exterior da presidente Dilma Rousseff, que será àquele país, no próximo dia 31. A escolha se constitui numa deferência do novo governo brasileiro ao país vizinho, importante parceiro do Mercosul. Hoje, o Brasil é o segundo maior fornecedor de produtos para a Argentina e o comércio bilateral tem crescido ano a ano, apesar das dificuldades do Mercosul. Logo que assumiu o posto, Patriota disse que o Mercosul era a bola da vez. E já deu o pontapé inicial. Como o governo Dilma deverá se caracterizar muito mais por organização, do que o improviso do governo Lula, espera-se que o Mercosul consiga sair dessa situação híbrida em que se encontra, em que não é nem uma união aduaneira e nem um mercado comum.
Fato curioso do encontro em Buenos Aires de Patriota com o seu colega argentino Hector Timerman, é que chegaram a falar no Conselho de Segurança da ONU, mas não houve qualquer reivindicação por parte do Brasil para ter uma cadeira permanente no organismo, nem tampouco um pronunciamento do chanceler argentino defendendo o ingresso brasileiro no conselho. O que resta ver é se este apoio brasileiro corresponderá a um apoio argentina à pretensão de Brasília de ter um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Ou será que o país vizinho não vai ligar para a pretensão de seu “irmão”?
DIÁRIO DOS EUA
Cheguei nesta sexta-feira a Miami para uma passagem por esta cidade e por Washington. O objetivo, sentir como os americanos estão lidando com a crise econômica, bem como com o fato que abalou o país nos últimos dias: o atentado de Tucson. Já deu para sentir que é grande a discussão por aqui em torno desses episódios de violência, que parecem ser uma exclusividade dos estadunidenses. Ao longo da semana estarei abordando essas questões no “Diário dos EUA”.