(Artigo publicado no Correio do Povo de domingo, 18/09)
Em um só dia nesta semana, o Brasil entrou para o Conselho de Segurança da ONU, apresentou ação mediadora para a questão israelense-palestino dentro do Conselho de Direitos Humanos do organismo e, ao mesmo tempo, declarou que a ONU está superada. Vamos por partes. A entrada no Conselho de Segurança ainda não é como membro permanente, como o país vem insistindo há 15 anos, mas como membro rotativo. É pelo prazo de dois anos, 2010 a 2011, mas já dá vitrine. Pode ser a oportunidade de mostrar porque o país quer tanto essa vaga. As ações até que estão acontecendo. A mais significativa delas se dá no Haiti, cujo mandato em nome da ONU foi prorrogado. Outra ação, passível de mais contestações do que a do Haiti, é a guarida a Manuel Zelaya na embaixada em Tegucigalpa. Positiva ou não, colocou o Brasil na vitrine mundial.
Quanto à ação mediadora, esta foi desenvolvida em Genebra com o objetivo de buscar uma solução intermediária para o Relatório Goldstone, que condenou Israel e os palestinos do Hamas por crimes de guerra, em função dos acontecimentos deste início de ano na Faixa de Gaza. Segundo o pronunciamento da embaixadora do Brasil nas Nações Unidas em Genebra, Maria Nazareth Farani Azevedo, o Brasil endossa o relatório e defende investigações sobre a conduta das duas partes envolvidas. Porém, que essas investigações sejam feitas no âmbito do Conselho de Direitos Humanos e não no Conselho de Segurança, nem tampouco no Tribunal Penal Internacional. O entendimento é de que a discussão nesses organismos pode desestabilizar as conversas de paz em curso na região. O questionamento que se tem que fazer é, que diferença faz? O desgaste é o mesmo. Tanto que Israel já tratou logo de se pronunciar no Conselho de Direitos Humanos, refutando o Relatório Goldstone.
Já o presidente Lula aproveitou a eleição do Brasil para o Conselho de Segurança para declarar que a ONU está superada. Que precisa se reformular. Para ele não tem como explicar o fato de Japão, Alemanha e Índia não integrarem o Conselho, que deveria ter ainda o Brasil e dois ou três países da África. Para comprovar que a ONU está enfraquecida, Lula usou um exemplo prático. Disse que a questão do Oriente Médio está sendo tratada pelos EUA, quando, no seu entender, deveria ser mediada pela ONU. O que é um fato. Mas a realidade é que resoluções da ONU já foram descumpridas por Israel e um posicionamento firme de Washington, como está fazendo agora com relação à ocupação israelense de territórios árabes de Jerusalém, fica mais difícil de o governo israelense rejeitar. Então, tudo é uma questão de quem tem poder. E a propósito, que tem poder hoje no Conselho de Segurança são EUA, Rússia, China, Inglaterra e França, que possuem o poder de veto. E estes não irão abrir mão desse poder em nome de uma reformulação do organismo que permita a entrada do Brasil.