Não bastassem os conflitos políticos e econômicos que vem enfrentando, a presidente Cristina Kirchner abriu mais outros dois focos de tensão. Depois de bater de frente com o setor rural, agora Cristina resolver bater também com o presidente do Banco Central da República Argentina, Martín Redrado. Ela pediu a renúncia do presidente, que tem ainda mais oito meses de mandato. A Casa Rosada indicou que, caso Redrado insista em não renunciar, será pedida na Justiça a sua destituição. Vale salientar que as regras do Banco Central determinam que para remover o presidente é necessário a autorização do Senado, que atualmente está em recesso.
A ação da presidente só poderia ser objeto de críticas da oposição e até mesmo de alguns aliados de mente mais aberta, simplesmente porque ela está ferindo a independência do Banco Central. O estopim da questão estaria no fato de ter sido criado, através de decreto de 15 de dezembro, um chamado, Fundo Bicentenário com 6,5 bilhões de dólares de reservas do Banco Central, para garantir a dívida pública em 2010. Redrado teria evitado colocar o fundo em prática, sob o temor de que essas reservas fossem interceptadas por credores argentinos que, em 2004, recusaram a oferta de troca da dívida não paga. Ou seja, aqueles que não aceitaram o calote que fora dado naquela ocasião.
Redrado afastou-se do cargo mas não renunciou. Na sexta-feira, porém, a juíza Maria José Sarmiento determinou a sua reintegração plena à presidência do BC, considerando inconstitucional o ato de Cristina, que perdeu mais uma.
ARQUIVOS
E depois de bater de frente com o setor rural e com o presidente do Banco Central, a presidente Cristina Kirchner resolveu determinar o desbloqueio dos arquivos confidenciais referentes à atuação das Forças Armadas durante a ditadura, que se estendeu de 1976 a 1983. A Argentina contabiliza 30 mil desaparições forçadas pela ditadura e a apropriação de 500 bebês nascidos em cativeiro. Há especulações de que até o casal presidente do grupo Clarin, com quem Cristina também está se batendo, tem um filho oriundo dessas apropriações. A documentação ficará agora à disposição da Justiça para subsidiar a apuração de violações aos direitos humanos pelo regime. No mês passado já começou o julgamento de 19 acusados de crimes contra a humanidade, que teriam sido cometidos na Escola de Mecânica da Marinha, tristemente famosa por ter sido o principal centro de detenção e de tortura do regime. Um dos ditadores da época, o general Jorge Rafael Videla, que está com 83 anos, cumpre prisão domiciliar.
O casal Kirchner resolveu investir na aproximação com as entidades de defesa do direitos humanos, mas a oposição diz que isto é apenas uma estratégia, usada como cortina de fumaça para desviar a atenção dos reais problemas enfrentados pela Argentina.