(Artigo publicado no Correio do Povo de domingo, 09/01/11)
A política externa brasileira não esteve presente em nenhum dos dois discursos que a presidente Dilma Rousseff pronunciou logo que assumiu o cargo. No entanto, ela mal assume e já se depara com um problema de relações internacionais. No caso, com a Itália, em vista da negativa do presidente Lula de extraditar o italiano Cesare Battisti, que é condenado à prisão perpétua em seu país, por implicações nas mortes de quatro pessoas. Ele foi um militante político de extrema-esquerda, durante a década de 1970, período em que teriam acontecido as mortes. Em um de seus últimos atos à frente do governo, Lula decidiu não extraditar Battisti, por entender que se ele voltasse para a Itália poderia sofrer perseguição ou discriminação por sua atuação política. Eu seja, declarou não confiar na Justiça italiana. A decisão do governo brasileiro de manter Battisti no país fez com que a Itália chamasse de volta o seu embaixador, fato que linguagem diplomática se constitui numa clara manifestação de discordância e no primeiro passo para o rompimento de relações.
O primeiro revés para o governo brasileiro poderá vir na terça-feira, dia 11, quando o Parlamento italiano deve votar a aprovação de um acordo de cooperação militar firmado entre Brasil e Itália, que prevê o desenvolvimento de projetos para a construção de navios da patrulha oceânica, fragatas e embarcações de apoio logístico. Por fim, para este caso, cabe perguntar: em que justiça cabe confiar mais, na da Itália ou na de Cuba. Lula não extraditou Battisti para a Itália, mas entregou para Cuba os dois boxeadores que haviam pedido asilo no Brasil.
Independentemente da herança do caso Battisti recebido de Lula, há muita expectativa quanto à política externa a ser implementada por Dilma. Política que terá à frente o chanceler Antonio de Aguiar Patriota, um funcionário que entrou na carreira em 1979 como o primeiro da turma. Ele galgou todos os postos no Itamaraty e foi embaixador em Washington de 2007 a 2009, período em que fez algumas amizades importantes, como a ex-chefe do Departamento de Estado Condoleezza Rice, o sub-secretário de Assuntos Políticos Nicholas Burns e o ex-embaixador no Brasil John Danilovich. Estas ligações poderiam supor que iremos ter sob Patriota uma maior aproximação com os EUA. Mas não é isto que se vislumbra. Patriota é da mesma linha de Celso Amorim, o que significa manter uma relação cordial com Washington, mas sem muita proximidade e, principalmente, sem dependência. A tônica do Itamaraty tem sido buscar mercados alternativos para o Brasil, razão das constantes viagens feitas por Lula enquanto esteve na presidência.
Viagens que terão sequência com Dilma. O objetivo é ampliar os negócios, assim como a presença e a ajuda a países da periferia em troca de apoio político. Deve seguir a pretensão de o Brasil alcançar uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU. Pretensão esta muito difícil de se concretizar e indefinida em termos de ganhos. Até hoje o Itamaraty não explicitou o que pretende com este objetivo. Só quem tem poder diferenciado no Conselho de Segurança são os cinco vencedores da Segunda Guerra – EUA, Rússia, China, Reino Unido e França – que possuem direito a veto. E este direito, que já é esdrúxulo para quem tem, e que precisa terminar, não será estendido para ninguém mais.
Outra aspecto que assinala uma continuidade da política externa brasileira é a manutenção de Marco Aurélio Garcia como assessor para Assuntos Internacionais. Assim como também a designação de Samuel Pinheiro Guimarães, para o recém criado cargo de alto representante do Mercosul, que é uma espécie de porta-voz do grupo. Vale lembrar que, segundo revelações do site WikiLeaks, o ministro da Defesa Nelson Jobim teria dito que Guimarães tem ódio aos EUA. O que significa que o discurso “chavizta” vai permanecer no bloco regional.
O único aspecto da política externa que deve mudar mesmo é com relação ao Irã. Antes de assumir, Dilma já se manifestou contra o voto que o Brasil deu na ONU a favor do Irã. Aliás, a relação com Mahmoud Ahmadinejad foi um dos fatores mais desgastantes para a política externa do presidente Lula. O volume de negócios realizados não justifica a amabilidade que Lula teve para com aquele governante. Neste ponto Dilma muda. No restante, deveremos ter uma continuidade da política Sul-Sul, que tem feito o Brasil se aproximar de novos mercados e de buscar, como um país emergente, novos apoios. Porém, tudo isto, feito com mais organização e menos improviso.