Algumas questões que se aguardava com relação ao pleito de Honduras se tornaram claras. E duas delas são fundamentais para a legitimação: o comparecimento do eleitor e a segurança do pleito. Pois, segundo o Tribunal Supremo Eleitoral, 61,3% dos eleitores inscritos votaram, o que representa 10% a mais de comparecimento com relação à eleição de 2005, quando Manuel Zelaya foi eleito. Quanto aos incidentes, só ocorreu um, em San Pedro Sula, quando partidários de Zelaya enfrentaram a polícia. Ou seja, o pleito foi limpo e deu a vitória ao conservador Porfírio Lobo,do Partido Nacional, com cerca de 62% dos votos, contra cerca de 39% de Elvin Santos, do Partido Liberal.
A eleição de ontem foi a conclusão de um processo conduzido pelo Tribunal Supremo Eleitoral, iniciado antes do golpe de Zelaya e que teve continuidade, independentemente da situação política do país. O processo legitima o presidente eleito e restabelece a democracia no país. Se constitui na concretização da última parte do acordo de San José, tendo em vista que a primeira, que previa o retorno de Zelaya ao governo, não se concretizou. Este aspecto, aliás, o Brasil está invocando para não reconhecer a legitimidade da eleição. Ora, o retorno de Zelaya seria apenas pró-forma, pois ele não iria governar, e não eliminaria o golpe. Este houve e o país ficou fora do sistema democrático desde quando o exército, ao invés de prender Zelaya, atendendo determinação da Corte de Justiça e do Congresso, resolveu sequestrá-lo e largá-lo em território de outro país.
Assim, negar o atual processo eleitoral significa ir contra a realidade de Honduras. O Brasil teve razão quando pregou a volta de Zelaya por ocasião do golpe, mas perde a razão agora em insistir com a volta do deposto, quando já houve uma eleição limpa no país. Menos mal que o assessor Marco Aurélio Garcia já admite mudança de posição por parte de nosso país.
RECUO
O recuo do assessor do presidente Lula Marco Aurélio Garcia se constitui num dado significativo para uma esperada mudança de postura por parte do Brasil com relação à crise de Honduras. Por enquanto, só houve manifestação de Garcia, Lula ainda não falou nada. Em seu último pronunciamento disse que não iria reconhecer a eleição de domingo. O que significa nadar contra a correnteza. A crise de Honduras se estende desde 26 de junho, quando Manuel Zelaya foi tirado do poder, porém agora, com a eleição, surgiu a oportunidade de solução, com o retorno à via democrática. Até porque, o processo eleitoral é conduzido por um órgão à parte, o Tribunal Supremo Eleitoral, que vinha tratando do assunto desde antes do golpe.
Zelaya está dizendo que não reconhece a eleição, mas ele a estas alturas não paita nada. Já convocou o povo à insurreição, assim como também ao não comparecimento às urnas, mas poucos foram os que o atenderam. O fundamental agora em Honduras é tratar da posse do novo, marcada para 27 de janeiro, podendo até ser antecipada, e acertar uma anistia geral para o retorno à paz. E também para que o Brasil se livre do abacaxi que se tornou a presença de Zelaya na sua embaixada em Tegucigalpa.