Não compactuo com a forma do senhor Marco Aurélio Garcia conduzir questões de políticas externas do Brasil. Tampouco compactuo com o pensamento e o modo de governar do senhor Evo Morales. Todavia, tenho que concordar com o comunicado emitido pelo governo brasileiro, através de Garcia, que é o assessor da presidência para assuntos internacionais. O governo brasileiro afirma que não vai reconhecer um governo que surja na Bolívia através de um golpe de Estado. E não pode mesmo. A Bolívia é um membro associado do Mercosul e um dos preceitos do nosso Mercado Comum do Sul é a preservação da democracia. E Evo Morales foi democraticamente eleito.
Agora, se ele não está fazendo um bom governo isto é outra história. Tanto não está que há meses vem se batendo de frente com os quatro estados mais ricos do país. Na realidade, o que há é uma radical divisão no país entre os povos indígenas do empobrecido altiplano, liderados por Morales, e as elites ricas e produtivas das terras baixas. A disputa já vem desde 2006, quando Morales convocou uma Assembléia Nacional Constituinte, passou pelo plebiscito de 10 de agosto e vai esbarrar na consulta popular prevista para aprovação ou não da nova Carta.
Antes de se chegar a essa consulta a crise estourou. Já há pelo menos oito mortos nas confrontações, a explosão de dutos que conduzem o gás para o Brasil e a expulsão mútua de embaixadores por parte de Bolívia e de EUA. Ou seja, a crise que é interna, extrapola as fronteiras. Mas há que considerar a consulta do dia 10 de agosto, quando Morales recebeu a aprovação do povo para ficar no cargo. Assim como receberam também os governadores rebeldes.
Então, volto a dizer, não compactuo com Morales, mas qualquer tentativa de tirá-lo do cargo é golpe. E golpe a gente espera que seja algo superado por aqui pela América Latina.