O presidente do Egito Hosni Mubarak trocou todo o seu governo na esperança de se manter no poder. Não adiantou. Os protestos continuaram. O que é natural. O povo quer é a mudança do governante, desgastado por 30 anos no cargo. A oposição quer seguir o exemplo da vizinha Tunísia, onde as manifestações populares derrubaram, a 14 de janeiro, o ditador Zine El Abidine Ben Ali. Fala-se que, se Mubarak cair, quem poderia assumir é o Prêmio Nobel da Paz 2005 e ex-chefe da Agência Internacional de Energia Atômica, Mohamed El Baradei. Ele inclusive foi para o Egito na quinta-feira da semana passada, somando-se aos protestos contra Mubarak. El Baradei, no entanto, tem pouca identificação com o seu país. Viveu o último quarto de século na Áustria, dedicando a maior parte desse tempo à AIEA. Não sedimentou vínculos políticos em seu país, faltando, portanto, capacidade de aglutinação para conciliar as partes em disputa.
Outro nome que surge como alternativa e este com maior força é o vice-presidente Omar Suleiman. É preciso ressaltar que ele resultou vice na reforma de governo que Mubarak fez na semana passada, porque até então ninguém ocupava o cargo. Diferentemente de El Baradei, Suleiman tem uma ampla atividade política no Egito. Durante muito tempo ele foi o responsável pela política de segurança do país, o que lhe permitiu um amplo relacionamento não só interno, mas também externo. É o homem apontado pelos EUA para fazer a transição. Aliás, os norte-americanos, que sempre deram apoio a Mubarak, sentiram que não há mais como sustentá-lo. E já indicaram que defendem um governo de transição com Suleiman à frente.
No entanto, os EUA se dizem defensores da democracia e dos preceitos de liberdade de imprensa e liberdade de ir e de vir. Não era o que Mubarak praticava e, seguramente, não será o que Suleiman ou El Baradei irão praticar se, simplesmente, um deles for colocado no poder sem a realização de eleição. Aliás, o que se espera é eleição com voto universal, mas sob supervisão internacional. E não eleições controladas, como Mubarak fazia. O problema para os EUA e seus aliados europeus é que, se for realizada eleição no Egito, quem deve vencer facilmente, segundo as previsões, é a Irmandade Muçulmana, maior movimento de oposição. Movimento este que está estruturado não só no Egito, mas em todos os países da região onde há agitação. E aí é que está o problema. Estes islâmicos do movimento estão muito mais para o Irã de Ahmadinejd do que para os EUA de Obama. E aí fica o dilema para Washington: como defender a democracia, se esta irá levar ao poder o inimigo. É o preço de não ter avaliado corretamente a durabilidade da autocracia aliada de Mubarak e de tantos outros no mundo árabe, que estão correndo o mesmo perigo.
Assim é que o problema não é só do Egito, mas de toda a região. Inclusive de Israel. Vale lembrar que o Egito liderou as quatro guerras que o mundo árabe travou contra Israel, desde a fundação do estado judaico em 1948. E, ao assinar o acordo de paz com o Egito, em 1979, Israel trouxe para o seu lado o seu principal inimigo. Assim, o medo, não só de Israel, mas também das monarquias do Golfo Pérsico, é de que no Egito venha a se repetir o que aconteceu no Irã em 1979, ou seja, a Revolução Islâmica que derrubou o xá Mohamed Reza Pahlevi, aliado do Ocidente, e colocou no poder o aiatolá Ruhollah Khomeiny. Uma revolução que provocou uma reviravolta no jogo geopolítico da região. O pior para o Ocidente é que no Egito a ascensão dos fundamentalistas islâmicos pode se dar, não por uma revolução, mas pela força do voto. Na Argélia, em 1993, a Irmandade Muçulmana venceu a eleição, mas não levou. Foi impedida de assumir pela força das armas. Assim, não é sem razão que este é mais um dos países do Magreb que enfrenta protestos antigovernamentais.
Voltando ao Egito, a grande incógnita que se estabelece é com relação ao Exército. A polícia, se sabe, se vestiu à paisana e foi para as ruas, como se fossem adeptos de Mubarak, para enfrentar os opositores, que protestavam pacificamente. O exército procurou se manter neutro, travando uma cordial relação com a população, que até flores lhes ofereceu. E foi interessante o chamamento feito pelo porta-voz do exército aos “netos dos faraós” e aos “construtores das pirâmides”, chamando-os ao entendimento. Usou de uma artimanha para tocar fundo no sentimento da população. No entanto, o exército marcha cada vez mais para uma encruzilhada: dar sustentação ao presidente, que só quer sair em setembro com nova eleição, ou apoiar os sentimentos populares e destituir Mubarak. As pressões internacionais podem evitar esse racha no exército egípcio, que seria catastrófico. Isto em um país que, segundo o embaixador brasileiro no Cairo, Cesário Melantonio Melo, está transformado num Estado onde inexiste o Direito.