O Afeganistão estava como segundo turno das eleições presidenciais marcado para este próximo sábado. Ontem, no entanto, o candidato Abdullah Abdullah, que iria concorrer com o atual presidente Hamid Karzai, retirou sua candidatura. Em decorrência, a Comissão Eleitoral Independente suspendeu o segundo turno e declarou Karzai reeleito. “A Comissão Eleitoral Independente declara o estimado Hamid Karzai como presidente por ter sido o vencedor do primeiro turno e o único candidato para o segundo”, afirmou o chefe da CEI, Azizullah Ludin, aos jornalistas. Tudo seria muito simples se Ludin estivesse acima de qualquer suspeita. Ocorre que Abdullah desistiu do segundo turno em protesto pela permanência de Ludin à frente da comissão eleitoral. Isto porque houve múltiplas acusações de fraudes no primeiro turno. Foi constatado, por exemplo, que em determinados locais de votação houve 100% de comparecimento e todos os votos foram para Karzai.
Todavia, como o atual presidente tem o apoio do Ocidente, especialmente para o combate aos terroristas da Al Qaeda e do Talibã, esse Ocidente acabou fazendo vistas grossas para as falcatruas e está apoiando a recondução de Karzai.
O problema maior é o Ocidente tentar mudar a cultura da região. O sistema eleitoral democrático como é praticado por aqui é desconhecido pelos afegãos, de acordo com Thomas H. Johnson, que é diretor do programa de Cultura e Conflitos da Escola de Pós-Graduação da Marinha dos EUA. Em entrevista à Folha ele diz que no último milênio, a fonte de legitimidade política tradicional no Afeganistão era baseada em dinâmicas patriarcais e dinásticas. E isto sempre se deu com base nas etnias predominantes no país: pashtuns, tadjiques e hazaras.
Johnson ressalta: “as eleições não fazem a democracia, a democracia é que faz as eleições”, destacando que os afegãos não entendem o sistema, o que favorece o argumento do Talibã, de que a democracia não oferece nada ao Afeganistão. Segundo Johnson, a única saída é tentar fortalecer os sistemas tradicionais baseados em conselhos locais, enfraquecidos desde a invasão soviética (1979-1989).