Os presidentes da Argentina, Néstor Kirchner, e da Venezuela, Hugo Chávez, estão fazendo de tudo para tentar dourar a pílula do caso da maleta contendo 800 mil dólares que entrou ilegalmente no país, na pasta do empresário venezuelano Guido Antonini Wilson, a bordo de um jatinho alugado pela estatal argentina de energia Enarsa. Aliás, a pasta estava com Wilson, mas eram quatro executivos da estatal venezuelana do petróelo PDVSA que estavam à bordo do jatinho. E mais ainda Claudio Ubertti, o presidente da agência que fiscaliza as estradas na Argentina e encarregado informal dos negócios entre Argentina e Venezuela. Kirchner já havia demitido Ubertti, na semana passada. Aí, resolveu pedir a cabeça de Diego Uzcateguy Matheus, vice-presidente da PDVSA e presidente da empresa na Argentina.
Está mais do que evidente de que o dinheiro era para financiar a campanha de Cristina Kirchner às eleições presidenciais de outubro. Mas, como foi descoberto pela Alfândega, era preciso organizar um jogo de faz de conta.
Nesse jogo, Kirchner não quis ficar sozinho. Exigiu a participação de Chávez, que lhe fornece dinheiro, não só para campanha política, mas também na compra de bônus da dívida argentina. O que, diga-se de passagem, também serve eleitoralmente. Em troca, Chávez tem recebido respaldo político de Kirchner para o seu proselitismo bolivariano. Nesta quinta-feira, por exemplo, Kirchner se juntou ao boliviano Evo Morales, ao equatoriano Rafael Correa e ao nicaraguense Daniel Ortega, para apoiar a iniciativa de Chávez quanto à criação do Banco do Sul.
E na receprocidade, Chávez atendeu o pedido de Kirchner e demitiu Wilson, o dirigente da PDVSA, que estava com a pasta do dinheiro. Fazendo o mesmo que Kirchner fizera com Uberti, o dirigente que fiscalizava as estradas argentinas. Afinal, alguém tem que pagar o pato. E, enquanto isto, como se não tivesse nada a ver com que está acontecendo, Cristina Kirchner segue disparada na preferência do eleitorado.