(Artigo publicado no Correio do Povo de domingo, 11/04)
Pois o regime cubano anunciou que vai libertar 52 presos políticos. Segundo consta, eles são os que permanecem na prisão dentre o chamado Grupo dos 75, presos na repressão da Primavera Negra de 2003, e condenados a penas de até 28 anos de cadeia. O fato fez com que Guillermo Fariñas, que estava há 135 dias em greve de fome, suspendesse o movimento. O anúncio da libertação dos presos políticos foi feito após recentes diálogos entre o presidente cubano, Raúl Castro, o líder da Igreja Católica em Cuba, cardeal Jaime Ortega e o chanceler espanhol Miguel Moratinos. Quem diria, o regime ateu de Cuba atendendo a reivindicação da Igreja Católica.
O que se observa é que a Igreja assumiu um papel mais determinante nos assuntos internos da ilha desde maio. Especialmente, depois que começaram as greves de fome, que, por sinal, foram desconsideradas pelo presidente Lula quando esteve em Cuba. Naquela ocasião morreu o dissidente Orlando Zapata Tamoyo, que estava em greve de fome. E Lula não só não deu a mínima, como ainda cometeu a heresia de comparar os presos políticos de Cuba com os presos comuns de São Paulo. Ou seja, o nosso grande estadista, que está pretendendo ser secretário geral da ONU, não atentou para os problemas de Cuba, que agora a Igreja está resolvendo. Tanto o cardeal Ortega como o chanceler Moratinos fizeram o que Lula deixou de fazer. Agiram não como opositores, mas como amigos do regime e o convenceram da necessidade da medida. É lógico que o regime cubano tomou esta medida não por querer sem bonzinho, mas impelido por necessidades, em decorrência do aperto econômico cada vez maior que a ilha enfrenta. Não se pode esquecer que cinco dos prisioneiros políticos são espanhóis, portanto, cidadãos da União Européia que apertou o cerco sobre Cuba. A UE estabeleceu o que foi chamado de “Posição Comum”, só aceitando diálogo com Cuba se houver avanços em direitos humanos e na democratização. De qualquer forma, os negociadores cumpriram um papel que bem poderia ser executado por Lula, se tivesse vocação para tal.
Aliás, convencer regimes de forças sobre questões democráticas ou direitos humanos não é o forte de Lula. Veja-se, por exemplo, o caso do outro amigo dele, o iraniano Moahmud Ahmadinejad. Dirige um país onde uma mulher, acusada de adultério, só não foi morta apedrejada nesta sexta-feira por causa da grande pressão internacional. Isto que ela já havia levado 99 chibatas em praça pública. Mas pode ainda morrer por enforcamento, como já morreram dissidentes políticos que acusaram fraude na eleição. Para Lula, a denúncia de fraude não passou de “choro de perdedor”. E para completar, Lula esteve esta semana na África, onde foi recepcionado, entre outros, pelo ditador da Guiné Equatorial Obiang Nguema Mbsogo, que está há 31 anos no poder. Ele é acusado por organismos internacionais de perseguir opositores do regime, fraudar eleições e violar direitos humanos. É também um dos mandatários mais ricos do mundo. Ao lado dele, Lula assinou acordos e divulgou um comunicado afirmando que “os dois países são comprometidos com a democracia e o respeito aos direitos humanos”. Ou seja, nosso presidente manchou a sua biografia esse colocou mais distante do pretendido cargo.