(Artigo publicado no Correio do Povo de domingo, 15/11/09)
Parece que os dirigentes do Oriente Médio acreditaram na proposta que o presidente Lula fez meses atrás de colocar o Brasil como mediador do histórico conflito que lá ocorre. Isto porque, os principais dirigentes da região resolveram visitar o Brasil. Nesta semana veio aqui o presidente de Israel Shimon Peres que, por sinal, em seu discurso no Senado lançou mensagens conciliadoras para palestinos e sírios. No dia 23 deste mês deve chegar ao país o controvertido presidente do Irã Mahmoud Ahmadinejad. Antes dele, no dia 20, chega o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas. Se todos virem com a mensagem de Shimon Peres, quem sabe até seja possível uma aproximação entre essas partes tão divergentes. O presidente israelense, que na chegada elogiou o Brasil como símbolo da paz, dirigiu-se diretamente ao presidente da ANP, Mahmoud Abbas, pedindo que recue da decisão de não se candidatar à reeleição em janeiro e que volte às negociações.
Peres, assim como todos que anseiam pela paz na região, sabe que a busca desse objetivo, se já é difícil com Abbas, ficará muito pior sem ele. No entanto, para que ele mude de posição, será preciso que Israel deixe de lado o seu programa de assentamentos na Cisjordânia e, principalmente, em Jerusalém Oriental. Aliás, este é o tema que colocou Israel em rota de colisão com o seu principal aliado, os EUA. O primeiro-ministro Benyamin Netanyahu esteve com o presidente Barack Obama, em Washington, nesta segunda-feira, o encontro, no entanto, resultou apenas em um lacônico comunicado, dizendo que foi referendado o compromisso dos EUA com a segurança de Israel e tratadas as questões referentes ao processo de paz no Oriente Médio e do Irã. Questões que são encaradas de modo diferente por Obama e Netanyahu.
Já vinda ao Brasil do presidente da ANP pode colocar um novo molho no prato do conflito do Oriente Médio. Esta visita ganha conotação importante, porque surge a informação de que Abbas deverá consultar Lula sobre uma possibilidade que estaria ganhando corpo dentro da ANP, ou seja, a declaração unilateral de independência por parte dos palestinos. Para fazer isto, eles precisam, obviamente, de ter o seguro apoio de algumas nações para uma possível decisão na ONU.
Na realidade, hoje a maior parte da Cisjordânia já funciona como um país independente. Está isolada por um muro construído por Israel e há todo um controle de fronteira. As cidades da Cisjordânia tem polícia e administração próprias. Assim é que, a declaração de independência virá legitimar algo que já existe. Só que, ficarão pendentes questões que hoje não estão resolvidas, como os assentamentos judaicos em territórios palestinos e o status de Jerusalém. Já que o Brasil se ofereceu como mediador, cabe ao Itamarati ir oferecendo sugestões para os dois lados. Até porque, por incrível que pareceça, será mais fácil agir nesse conflito que se estende por 5 mil anos, do que buscar uma negociação equilibrada para o cenário internacional com o outro visitante que está vindo aí, o iraniano radical Ahmadinejad.