O Brasil está recebendo a visita do presidente de Israel e Prêmio Nobel da Paz Shimon Peres. O visitante já chegou elogiando o Brasil, dizendo que não é mais o país do futuro, mas que o futuro já é o Brasil. E conclamando o Oriente Médio a se espelhar no Brasil para a busca da paz. Na extensão da conversa de Peres com o ministro da Defesa Nelson Jobim, foi sinalizada a intenção de fechar um acordo de cooperação entre os dois países de combate ao terrorismo e reforço das ações da paz no mundo. Vale lembrar que o presidente Lula já fez a oferta da inclusão do Brasil como mediador do conflito do Oriente Médio.
Pois bem, temos aqui um encontro cheio de boas intenções, mas pródigo em incoerências. A começar pelo prêmio concedido a Peres, que foi por uma paz que nunca se concretizou. Não que Peres não o tenha merecido. Mereceu e muito, porém, foi traído pelos acontecimentos, assim como os seus dois parceiros que dividiram o prêmio, o palestino Yasser Arafat e o seu conterrâneo Yitzhak Rabin. Este, inclusive,teve sua vida tirada pelo radicalismo judaico.
Quanto ao Brasil como exemplo de paz, até que tem alguma lógica. Aqui judeus e muçulmanos vivem na mais completa harmonia. Não se tem divergências religiosas nem radicalismo político. Mas, em compensação, temos uma violência civil que chega quase a se equiparar ao terrorismo do Oriente Médio. Por isto soa estranho o Brasil querer atuar com Israel no combate ao terror quando, internamente, temos vigente o terror do narcotráfico.
E, por fim, quanto ao fato de o Brasil querer atuar como mediador no milenar conflito do Oriente Médio, vale lembrar que não conseguimos resolver problemas regionais, como o de Honduras, o de Venezuela e Colômbia e muito menos a guerra das papeleiras entre Argentina e Uruguai. Com o que, essa pretensão parece utópica.
Assim, antes de tudo isto, o governo brasileiro precisa explicar para Peres porque, logo depois que ele for embora, estará recebendo o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad que, entre outras coisas, nega o Holocausto.