– j.soares@cpovo.net –
O que se pode esperar depois de Mahomoud Abbas ter encaminhado ao Conselho de Segurança da ONU o pedido de formalização do Estado da Palestina? Múltiplos desdobramentos, logicamente. O primeiro deles tem a ver como veto que os EUA vão dar, segundo anunciou o presidente Barack Obama. Este veto, embora seja coerente com a posição norte-americana, é contraditório com a posição de Obama. Há poucos dias ele defendeu a constituição de dois estados, com base nas fronteiras de 1967. Algo que não agradou os israelenses, que querem seguir com sua política de assentamentos em territórios palestinos da Cisjordânia e, principalmente, seguir com a sedimentação de sua ocupação de Jerusalém. É por isto, inclusive, que o governo israelense leva o assunto Palestina com a barriga. Pois, quanto mais demora, mais se concretiza a ocupação. Mesmo que haja uma resolução, 242, da própria ONU, que estabelece a desocupação israelense dos territórios. Então, Obama, mesmo não gostando de Netanyahu – alguém já viu ele sorrindo em um encontro dos dois? – cedeu à força do lobby judaico nos Estados Unidos.
Outro desdobramento se dará no próprio Conselho de Segurança, onde o representante do Líbano, que presidente atualmente o órgão, disse que vai fazer o assunto se arrastar por muito tempo, para que seja alvo de um grande debate, antes de entrar em votação. Se o pedido obtiver a maioria de nove votos, mesmo com o veto dos EUA, pode seguir o seu rumo, passando para a Assembléia Geral, onde tem a possibilidade de ganhar o status de Estado observador não-membro, o mesmo do Vaticano. Com isto, pode passar a fazer parte de órgãos da ONU como Unesco, OIT e Tribunal Penal Internacional. E ganha uma certa força política para contestar a ocupação israelense de seus territórios.
Tanto para EUA como para Israel torna-se cada vez mais difícil argumentar contra a constituição do estado dos palestinos. “Se vetarem o Estado, perdem um aliado”, foi o que disse Turki al Faisal, ex-embaixador da Arábia Saudita nos EUA e membro influente da família real. E a Arábia Saudita é um dos mais importantes aliados dos EUA no Oriente Médio. Outro fato que se projeta é de distúrbios nos territórios ocupados, com uma nova Intifada, o que não é nada bom para Israel. Ainda mais neste momento em que estão em perigo suas relações com os dois principais aliados que tinha na região: Egito e Turquia. Soldados egípcios e cidadãos turcos morreram recentemente em confronto com forças israelenses. Enquanto o governo egípcio abre a fronteira para os palestinos de Gaza, o governo turco cogita dar cobertura, através de sua Marinha, as embarcações que se dirigirem a Gaza. É tensão para Israel onde havia tranqüilidade. E justamente em Gaza é onde predomina a facção radical palestina do Hamas, que não quer saber de acordo com Israel.
Ao tentar esfriar a ação da Autoridade Nacional Palestina, o governo israelense está desprezando a liderança moderada dos palestinos. Aquela que aceita uma convivência pacífica entre os dois estados, conforme Mahmoud Abbas referendou ainda nesta sexta-feira em seu pronunciamento perante a Assembléia Geral do ONU. Netanyahu convidou Abbas para negociar ali mesmo, em Nova York. Negociações que poderiam ter sido desenvolvidas há muito tempo, se ele aceitasse uma questão básica colocada pelos palestinos: parar com os assentamentos nos territórios ocupados. O fato é que, amanhã, a situação dos palestinos em seus territórios pode continuar a mesma, porém, o seu brado independentista, dado através da imensa vitrine que é a Assembléia Geral da ONU, ecoou pelo mundo afora. O que não deixa de ser uma importante conquista política.