(Artigo publicado no Correio do Povo de domingo, 05/12/10)
O único avanço que presidente Barack Obama teve em política externa, a reaproximação com a Rússia, foi abalado esta semana pelas revelações do site Wikileaks. Aliás, toda a política externa norte-americana foi abalada ao tornar-se público o conteúdo de 250 mil documentos do Departamento de Estado, relativos a atividades desenvolvidas desde 1966 até fevereiro último. Na realidade, não há novidade nenhuma no que foi revelado. Ou alguém duvidava que os EUA, através de suas representações diplomáticas, promovem uma varredura de informações por toda a parte do mundo? Só se acreditar também no Papai Noel!
A maior potência do mundo sempre usou de todos os serviços, secretos ou não, para se informar sobre dirigentes, países, regiões, etc. Senão, como iria traçar suas estratégias de dominação? Tampouco surpreende as revelações que foram feitas. Apenas se constituem naquele fato que você comenta na intimidade com alguém muito próximo, mas não pode tornar público. Por exemplo, vamos retomar o caso da Rússia. Não é segredo para ninguém que Vladimir Putin tem uma personalidade muito mais forte do que a de Dmitri Medvedev. Mas, para identificar bem o quadro, quem prestou as informações qualificou Medvedev como o Robin do Batman Putin. O que dá uma qualificação muito mais perceptível. Só que isto não pode ser dito em público. Como também não pode ser dito que o sistema político russo é tutelado pelo serviço secreto, o qual ao longo de muito tempo foi comandado por Putin. Porém, foi graças a isto que a Rússia se estabilizou, depois de ter passado pelo desastrado e cambaleante governo de Boris Yeltsin.
Então, não houve inverdades nas avaliações sobre a Rússia, assim como também não há inverdade quando Elizabeth Dibble, diplomata americana em Roma, qualifica Silvio Berlusconi como “irresponsável, festeiro, vão e ineficaz”. Tampouco há inverdade quando documentos mostram a preocupação com o fato de que material nuclear pertencente ao Paquistão possa cair em mãos de terroristas. Todo mundo sabe o que é a fragilidade do governo paquistanês, que não tem controle sobre a sua região fronteiriça com o Afeganistão, onde estão as bases da Al Qaeda e do Talibã, que atuam ali de forma autônoma. Pode-se dizer da mesma forma que é de se duvidar da sanidade mental da presente argentina Cristina Kirchner, como fez a secretária de Estado Hilary Clinton. Afinal, não pode estar “batendo bem” uma dirigente que resolve bater de frente e prejudicar o setor que é o carro-chefe da economia do país, ou seja, o do agro-negócio. Basta ver o que isto representou para a Argentina, especialmente no que toca às exportações da carne, um dos seus principais produtos da sua balança de negócios. Muito menos novidade significa classificar o venezuelano Hugo Chávez de “louco”, com a ênfase que nem o Brasil está disposto a apoiá-lo.
E a propósito de Brasil, que não poderia faltar nas avaliações americanas, também não se vê novidade. Ficou sempre muito claro o descontentamento americano com a política do Itamaraty, de aproximação com Chávez e seus parceiros “bolivarianos”, bem como com o iraniano Mahmoud Ahmadinejad. Uma política que, diga-se de passagem, não levou a nada, mas que foi de não alinhamento incondicional a Washington, como era costume. Aliás, graças ao crescimento econômico e ao carisma do presidente Lula, o Brasil passou a ser o país mais influente na América Latina, segundo pesquisa do Latinobarômetro, organismo sediado em Santiago do Chile. Superou EUA, que ficou em segundo, e que só segue predominando no México e América Central. Segundo lugar que foi compartilhado com Venezuela, que perdeu dois pontos percentuais e que segue em declínio, predominando agora, conforme a pesquisa, apenas sobre o Equador, Nicarágua e República Dominicana. O restante do continente está sob a influência predominante do Brasil. Mas, voltando à avaliação dos serviços americanos sobre o Brasil, revelada pelo Wikileaks, não surpreende tampouco o fato de o ministro da Defesa Nelson Jobim ser o preferido de Washington. Afinal, ele firmou um acordo militar com os EUA que, possivelmente, é mais amplo que o assinado pela Colômbia, e não houve nenhuma rejeição regional.
Então, tudo o que foi revelado pelo Wikileaks se constitui em fatos que se comenta em bastidores, mas que não se pode dizer publicamente. O problema foi terem vazado as informações.